MONS. LUIGI NEGRI FAZ UM ELOGIO VIGOROSO E PROFUNDAMENTE PASTORAL DO MOTU PROPRIO
Carta 40
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No passado dia 19 de Maio, domingo de Pentecostes, uma centena de fiéis Summorum Pontificum vindos de toda a Emilia-Romagna encontraram-se junto de Nossa Senhora do Poggetto, um santuário perto de Ferrara. Esta peregrinação, um ano após o terramoto que abalou esta região, tinha por finalidade, nomeadamente, agradecer à Santíssima Virgem pela sua protecção: e, de facto, de entre todas as igrejas de Ferrara, foi esta pequena igreja do santuário a única a ficar completamente ilesa depois do sismo. 

O evento foi também ocasião para os grupos de fiéis ligados à forma extraordinária da região poderem conhecer-se melhor e preparar a próxima peregrinação internacional a Roma do povo Summorum Pontificum. Foi a estes peregrinos que a Providência enviou uma agradabilíssima surpresa: estava previsto que o arcebispo, Mons. Luigi Negri, lhes dirigisse uma breve saudação ao fim da manhã, mas afinal, os seus afazeres acabaram por lhe permitir chegar no momento da homilia, que ele aceitou fazer, ainda que com pouco pré-aviso. Pois bem: à medida que os concelebrantes (todos diocesanos) e os fiéis iam escutando a homilia, e o seu fundado elogio do Motu Proprio Summorum Pontificum, foram compreendendo que estavam a assistir a um verdadeiro acontecimento.




I –  HOMILIA DE MONS. LUIGI NEGRI, ARCEBISPO DE FERRARA, POR OCASIÃO DA PEREGRINAÇÃO AO SANTUARIO DE NOSSA SENHORA DO POGGETTO, DOMINGO DE PENTECOSTES DE 2013


A Santa Missa de acordo com o rito tradicional está hoje a ser celebrada na grande solenidade do Pentecostes, que lembra à Igreja, em todos os tempos e em todos os lugares, e assim a todos os cristãos, que o acontecimento que é a Fé e, por conseguinte, o seu desenvolvimento numa vida de comunidade e de comunhão, na prática da caridade, no exercício activo da missão, tudo isso nasce do milagre da efusão do Espírito Santo no coração dos fiéis, o que é um puríssimo dom do Senhor!

O Santo padre Bento XVI, numa admirável alocução por ocasião à assembleia do Sínodo dos Bispos dedicada à Nova Evangelização, e na qual tive a honra de participar a seu convite pessoal, disse que a Igreja não nasce por decisão vinda da base, a Igreja não nasce a partir de uma qualquer assembleia constituinte: a Igreja nasce da acção do Espírito Santo, que muda o coração dos homens e os identifica com o próprio Coração de Deus. É o Espírito do Senhor crucificado e ressuscitado, o seu olhar sobre a vida, a sua maneira de apreender a existência, a sua relação com os homens; é a novidade do seu ser e da sua existência que se transmitiu de modo, poderíamos dizer, impetuoso, à vida de uma comunidade que incontestavelmente estava em oração, à espera dele, mas que de modo algum podia arrogar-se a penetrar no mistério do acontecimento de que ela era espectadora e do qual se tornou depois protagonista. O Espírito muda o coração do homem, a sua maneira de ser, a sua maneira de agir e a sua maneira de apreender a existência. A humanidade de Cristo prolonga-se no mundo. A Igreja que nasce do Espírito mantém-se no Espírito, comunica-se aos homens pelo Espírito. A Igreja é o rosto definitivo que Cristo assumiu na história.

Quanto a nós, cabe-nos esta outra grande herança, também ela definitiva: a de participar verdadeiramente do mistério da Igreja uma, santa, católica e apostólica. Esta herança, vivemo-la nós verdadeiramente na nossa vida de todos os dias, tanto na felicidade como na tristeza, na saúde e na doença, na alegria mas também na dor, tal como o proclamam os actores eminentes desse grande sacramento eclesial que é o matrimónio. Creio que isto situa no seu verdadeiro contexto, a louvável iniciativa desta peregrinação e desta Missa.

Desejaria, e desejo-vos, que esta celebração eucarística do dia de Pentecostes vos sirva, como me serviu a mim também, para que possam reencontrar o ardor das origens, o ardor do nascimento desta Igreja engendrada pelo Espírito Santo. A grandeza que envolve a manifestação da nossa missão serve para nos fazer participantes da sua novidade e incita-nos a não a guardarmos só para nós, mas antes a difundi-la por entre todos os homens.

Ontem, participei da Vigília de Pentecostes do Papa Francisco com mais de 150.000 jovens provenientes das mais variadas realidades eclesiais. A dado momento, o Papa disse o seguinte, naquele seu estilo sincero e franco que até pode chegar a uma dureza a que já não estamos habituados: «A Igreja deve sair de si mesma», ela não se deve fechar. «Quando a Igreja se fecha, acaba por ficar doente.» A Igreja deve abrir-se, sem abandonar a sua identidade, mas precisamente para viver essa sua identidade, porque o ambiente natural da Igreja é a missão. Convém pois que a Igreja saia de si mesma para ir até aos homens, explorando todas as periferias da vida do homem contemporâneo.

Por conseguinte, é o Pentecostes que vos dá a vossa missão eclesial. Outorga-vos a honra insigne de serdes testemunhas do Cristo ressuscitado até aos confins do mundo. Torna-vos geradores, como diz Santo Ireneu num texto magnifico, dos filhos de Deus. Torna-vos capazes de fazer dos homens filhos de Deus.

Nestes primeiros meses de serviço episcopal [Mons. Negri era antes bispo de São Marino e foi nomeado arcebispo de Ferrara nos últimos tempos do pontificado de Bento XVI], já me foi dado ter de definir quais são os termos em que se deverão desenrolar a vida e a missão. Nesta saudação que agora vos dirijo, não posso, nem devo, passar tudo isso em revista, mas parece-me importante colocar esta celebração sob o olhar terno e firme de Maria, vendo-a como um momento de graça e de responsabilidade.

O cristianismo é um acontecimento de graça porque nos é completamente dado e não há quem possa vir dizer «tenho o direito a». Não tínhamos direito à Fé. Não tínhamos direito à Encarnação do Filho de Deus. E é assim que nos acontece termos por vezes de lembrar a alguns fiéis que aparecem a pedir, melhor, a reclamar os sacramentos, que eles não têm direito algum sobre os sacramentos. Os sacramentos são um dom que a Igreja recebeu de Nosso Senhor Jesus Cristo e que a Igreja confere aos que estão nas condições de os receberem de modo adequado. Pretendo referir-me a essa questão absolutamente priva de qualquer fundamento – do ponto de vista teológico e pastoral – desse «direito» a receber a Eucaristia que porventura teriam os divorciados que se casaram de novo.

Uma graça da Igreja que viveis na fonte da própria Fé é, pois, a Eucaristia, a celebração litúrgica. Pela grande e prudente misericórdia de Bento XVI, podeis desfrutar dela no âmbito de um dos dois grandes tesouros da liturgia da Igreja, a liturgia tradicional. Esta não é uma alternativa à liturgia reformada pelo Concílio Vaticano II, mas antes aparece a exprimir todo o seu carácter próprio lado a lado com a liturgia reformada, e fá-lo com toda a dignidade, com toda a liberdade e de modo plenamente responsável.

Bento XVI disse isso mesmo com uma clareza admirável no Motu Proprio. Quis alargar a possibilidade de viver as riquezas da liturgia da Igreja e, por isso, pediu a toda a Igreja, a começar pelos bispos, para respeitarem esta sua intenção de dar largas aos tesouros da Igreja, concedendo a quem sente o desejo legítimo de beneficiar de tais tesouros o direito de poder aceder a este tesouro “antigo”  e de o viver em plenitude nos dias que correm com vista à verdade da Fé e à missão dos dias de hoje.

É incontestável que, desta maneira, o Papa conseguiu superar a falsa e inaceitável oposição entre o “antigo” e o “presente”, rompendo e superando aquela hermenêutica da descontinuidade relativamente ao que existia antes do Concílio e àquilo que o Concílio veio anunciar, e ainda aquilo que, com custo, a passagem à prática do Concílio nos levou a viver na actualidade. Há uma única Igreja de Nosso Senhor, à qual o Espírito permitiu que atravessasse momentos diferentes: o Concílio Vaticano II foi um momento de extraordinária importância, mas foi também um grande desafio para o crescimento da Igreja.

É então esta a liturgia que decidis seguir e utilizar – e estou feliz que o façais nesta diocese de que sou o arcebispo há bem poucos meses. Não o fazeis contra alguém ou para afirmar uma opinião, mas para viver o mistério da Igreja de acordo com a profundidade e a verdade que entendeis ter o dever e o direito de praticar. E a Igreja também permite isso. Bento XVI, e não costumo falar no ar, manifestou uma verdadeira misericórdia pastoral ao pôr esta possibilidade ao serviço da Fé de cada cristão e de pequenos grupos, que, aliás, do ponto de vista numérico nem terão de ser identificados de modo estrito: os “coetus” (grupos estáveis) são todos os fiéis que têm o direito e o dever de poder aceder a esta liturgia. Tende-la à disposição, nas vossas mãos, e a Igreja permite-vos que a pratiqueis com toda a liberdade.

Não há ninguém, não há nenhuma diocese italiana ou de qualquer outra parte do mundo que vos possa dizer que não. No dia em que apareça um só “não” que seja, é o bispo que deverá ser chamado ao assunto. Antes disso, o diálogo dos fiéis que desejam a liturgia antiga e a Igreja é um diálogo entre os fiéis e o sacerdote que haja por bem ajudar-vos nesta vossa prática e na vossa vontade de participarem neste antigo e belíssimo rito, o qual, para que dele se possa participar adequadamente, exige por certo a preparação que lhe corresponde e que certamente tendes. Penso que para que esta se torne uma experiência para tantas pessoas que a não conhecem, fará falta um período de formação e de preparação.

[Mgr Negri evoca a sua experiência na sua diocese precedente, São Marino – veja-se a nossa carta 297 em francês]

Praticai a liturgia antiga para vosso bem. Pela verdade da vossa Fé. Pela verdade da vossa Caridade. Para dar ímpeto à vossa missão. Tal como acontece com quantos a levam a cabo com a liturgia reformada, que também o fazem pela verdade da sua Fé e da sua Caridade: trata-se de dois tesouros ao serviço de um único povo. E este povo que é único e maduro só se alimentará da Fé se, justamente, souber viver a liberdade que a Igreja lhe concede. A liberdade litúrgica que, neste caso, a Igreja não só concede como garante.

Não queirais ter opiniões a defender ou a contrapor aos demais. O arcebispo de Ferrara-Comacchio não é o guardião de uma qualquer opinião, como não é o propagador de uma qualquer opinião. O arcebispo de Ferrara-Comacchio só tem uma opinião: a verdade de Nosso Senhor, o Evangelho, a Tradição da Igreja, o Magistério do Santo Padre e o seu próprio, sempre em ligação com o do Santo Padre. Foi este o espaço dentro do qual Bento XVI fez a concessão. Eu fui um dos bispos (e, para dizer a verdade, não são muitos) que de tudo isto tiraram um aprofundamento da sua própria identidade no que toca à experiência de Deus. É uma grandeza, não apenas para os que o praticam, mas é uma grandeza também para toda a Igreja.

Por isso, e concluo, devereis sempre procurar a maior adesão possível à vida da comunidade eclesial. Esta vossa prática não vos subtrai à vida da comunidade eclesial nem à realização custosa, mas bela, da comunhão.

Nesta nossa terra [atingida um ano antes pelo terramoto, NdT], a vida eclesial está fortemente impregnada do lento mas inexorável esforço de se levantar das ruínas materiais que, como já escrevi, foram um grande desafio para nos levar a recuperar a Fé e a Caridade. Desde que aterrei no meio do clero desta diocese que pude observar que há muitos leigos que não entraram em crise por causa do terramoto de há um ano, o cual veio impedir o funcionamento de centenas de igrejas. Ele veio obrigá-los, e obriga-nos ainda, a viver a Eucaristia em lugares ao acaso e em salas onde as comunidades são acolhidas, ou então a celebrá-la nos poucos lugares poupados pelo terramoto. O terramoto destrui casas e igrejas. Não destruiu a Fé. É sobre esta Fé que contamos recomeçar. Infelizmente devemos também poder contar com as instituições públicas, que até agora não deram grandes provas de tempestividade, mas o primeiro recurso de que dispomos é a nossa experiencia de Fé. Estamos todos dentro de uma única Igreja: por isso, também nesta experiência particularíssima e belíssima que viveis, devereis esforçar-vos por viver cada dia mais e mais como membros vivos da Igreja, participando do único Sangue e do único Corpo de Nosso Senhor, de modo a poderdes ser, com o crescimento em vós da Fé, da Esperança e da Caridade, membros vivos desta Igreja no mundo.

Sigo-vos com afecto, e encorajo-vos no vosso caminho. Peço-vos aquela sã humildade de que o Papa Francisco, antes de a pedir à sua Igreja, dá ele mesmo testemunho cada dia, com a sua presença e o seu modo de ser. Não penseis noutra coisa que não seja viver profundamente o que a Igreja concedeu para o vosso bem e para o bem de toda a Igreja. Ficai certos de que jamais vos faltará o meu acolhimento e o meu apoio. E também a minha correcção, se fosse necessária, e sempre que fosse necessário dar expressão a este meu dever, como no caso de qualquer outra comunidade, mas suponho que isso jamais sucederá! Prossegui com esta Santa Missa, que de modo algum quis interromper. Quero, sim, sublinhar que não pude participar na íntegra desta louvável iniciativa pelo único motivo de que me esperavam, e me esperam ainda, os compromisso diocesanos próprios da solenidade do dia de hoje.

Assim, e doravante, para que o vosso caminho seja claro e seguro, abraçai a verdade, dom do Senhor que o Espírito Santo dá a toda a Igreja e que o bispo guarda, protege e comunica. Rezai pois por mim, por esta não leve carga que sinto pesar-me sobre os ombros e que ao chegar ao fim da minha vida aceitei assumir em obediência ao Vigário de Cristo, o qual mo pediu com uma insistência que demoveu qualquer possibilidade de resistência. Boa festa para todos!



II – AS REFLEXÕES DA PAIX LITURGIQUE


1)  Cumpre fazer notar que quando Mons. Negri pronunciou estas palavras estava a chegar vindo de Roma: vê-se pois que o seu contacto com o Papa em nada moderou o seu entusiasmo nem travou a sua língua. Desde ponto de vista, e depois da boa nova da peregrinação Summorum Pontificum do próximo mês de Outubro e do artigo de Il Foglio (veja-se a nossa carta anterior), esta homilia contribui também para a serenidade que nos inspira em relação às perspectivas que se abrem para a forma extraordinária do rito romano.


2) Que um bispo chame a atenção de modo claro e minucioso para a letra e para o espírito do Motu Proprio, por ser algo raro, bem merece que o realcemos:

a) Os grupos estáveis de fiéis que desejam viver a sua fé católica ao ritmo da liturgia extraordinária não têm de preencher qualquer condição especial: «Bento XVI, e não costumo falar no ar, manifestou uma verdadeira misericórdia pastoral ao pôr esta possibilidade ao serviço da Fé de cada cristão e de pequenos grupos, que, aliás, do ponto de vista numérico nem terão de ser identificados de modo estrito: os “coetus” (grupos estáveis) são todos os fiéis que têm o direito e o dever de poder aceder a esta liturgia. Tende-la à disposição, nas vossas mãos, e a Igreja permite-vos que a pratiqueis com toda a liberdade».

b) É ao pároco, e não ao bispo, que as pessoas se devem dirigir. Se o pároco se recusa, o que não deveria acontecer, só então é que os requerentes se deverão voltar para o bispo: «Não há ninguém, não há nenhuma diocese italiana ou de qualquer outra parte do mundo que vos possa dizer que não. No dia em que apareça um só “não” que seja, é o bispo que deverá ser chamado ao assunto. Antes disso, o diálogo dos fiéis que desejam a liturgia antiga e a Igreja é um diálogo entre os fiéis e o sacerdote que haja por bem ajudar-vos nesta vossa prática e na vossa vontade de participarem neste antigo e belíssimo rito».

c) Esta maneira de celebrar integra-se na vida normal da Igreja e na sua missão: «Praticai a liturgia antiga para vosso bem. Pela verdade da vossa Fé. Pela verdade da vossa Caridade. Para dar ímpeto à vossa missão. Tal como acontece com quantos a levam a cabo com a liturgia reformada, que também o fazem pela verdade da sua Fé e da sua Caridade: trata-se de dois tesouros ao serviço de um único povo. E este povo que é único e maduro só se alimentará da Fé se, justamente, souber viver a liberdade que a Igreja lhe concede. A liberdade litúrgica que, neste caso, a Igreja não só concede como garante».


3) Visto que muitos foram os sacerdotes que, graças ao Motu Proprio, puderam celebrar a missa tradicional, o arcebispo de Ferrara dá também conta do enriquecimento pessoal que isso lhe trouxe: «Eu fui um dos bispos (e, para dizer a verdade, não são muitos) que de tudo isto tiraram um aprofundamento da sua própria identidade no que toca à experiência de Deus. É uma grandeza, não apenas para os que o praticam, mas é uma grandeza também para toda a Igreja».

Guardaremos também com emoção estas palavras que tanto gostaríamos de poder ouvir com frequência aos pastores da Igreja: «Sigo-vos com afecto, e encorajo-vos no vosso caminho … Ficai certos de que jamais vos faltará o meu acolhimento e o meu apoio». E nós respondemos com entusiasmo: «Ad multos annos, Excelência! »