“LONGE DE SER UM PRAZER DE DANDY, A MISSA TRADICIONAL ESTÁ FEITA PARA OS POBRES QUE MORAM NO CORAÇÃO DO PAPA”
Carta 43
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Encontro com Guillaume Ferluc, secretário do Coetus Internationalis Summorum Pontificum, promotor da peregrinação do povo Summorum Pontificum a Roma


Depois do sucesso do ano passado, o povo Summorum Pontificum está agora em plena fase de mobilização para mais uma peregrinação a Roma, de 24 a 27 de Outubro próximos. Esta semana, apresentamos alguns extractos de uma entrevista dada pelo secretário-geral da peregrinação, Guillaume Ferluc (que também é colaborador da Paix Liturgique), à revista americana The Remnant. Em seguida, deixamos ainda um vademecum do peregrino.



I – ENTREVISTA COM GUILLAUME FERLUC


1)    Como tem sido a organização por comparação com o ano passado?

Acabámos de fechar o programa com o anúncio do celebrante da missa em São Pedro, no sábado, dia 26 de Outubro, às 11 horas: o Cardeal Castrillón Hoyos, que nesse dia festejará o seu 61°  aniversário de ordenação sacerdotal. Para todo o povo Summorum Pontificum será uma grande alegria e uma honra poder estar junto do Cardeal nesse dia. Na qualidade de presidente da Comissão Ecclesia Dei, o Cardeal Castrillón Hoyos não poupou esforços na defesa dos direitos dos fiéis e dos sacerdotes ligados à liturgia tradicional e acompanhou com entusiasmo a promulgação do motu proprio desejado pelo Papa Bento XVI.

Já no que se refere à dinâmica em torno da peregrinação, nota-se este ando uma grande boa vontade em relação a nós, em especial da parte de todos os que consideram ser importante testemunharmos visivelmente a nossa fé católica, apostólica e romana; romana, no sentido de que é manifestada "ad Petri sedem, cum Petro et sub Petro". Certamente também encontrámos resistências, em especial junto de um certo tipo de clero que parece querer aproveitar da renúncia de Bento XVI para mandar para o esquecimento a missa de São Pio V – jamais abrogada!...


2)  Além de Dom Atanásio Schneider, contarão ainda com outro celebrante, Dom Fernando Rifan, ordinário da Administração Apostólica de São João Maria Vianney, de Campos, no Brasil. Qual o motivo deste convite?

Para o acompanhamento da nossa prática religiosa, para se poder ir à missa tradicional nas próprias paróquias, é preciso que haja sacerdotes, e por conseguinte, seminários que os formem e bispos que os ordenem. Actualmente, Dom Fernando Rifan é o único bispo em todo o mundo que tem por missão pastoral fazer isso mesmo; por isso, pareceu-nos importante tê-lo entre nós!

Além disso, recebemos excelentes testemunhos das Jornadas Mundiais da Juventude do Rio de Janeiro, durante as quais, Dom Fernando Rifan esteve encarregado da catequese dos jovens do Juventutem, um grupo cujo apostolado assenta na liturgia tradicional. A igreja esteve cheia, as celebrações tiveram grande dignidade e as pregações foram muito apreciadas.

Até há pouco, quem poderia imaginar que, no Brasil, centenas de jovens poderiam seguir três dias de pregações e missas, e confessar-se a sacerdotes ligados à tradição da Igreja? E tudo isso com o apoio oficial da Igreja? Naturalmente, poder-se-á objectar que era apenas um bispo entre 300, mas já é um primeiro passo dado e algo de adquirido, tanto mais que o lugar que aí se destinou ao Juventutem foi um lugar simbólico: a antiga Catedral do Rio de Janeiro, um local carregado de história e marcado pela fé das gerações passadas.

Sobretudo, as Jornadas foram uma boa ilustração de como a liturgia tradicional atrai os jovens. Por essa razão, não temos o direito de ficarmos apenas abrigados debaixo das nossas certezas, mas devemos antes ir ao encontro de todos aqueles que desejam ter uma maior presença do sagrado e da solenidade na sua vida de fé.


3)  A propósito, tem conhecimento de que mesmo na Catedral de Helsínquia já foi instituída uma missa regular na forma extraordinária na qual participam em média 80 fiéis, o que é um número importante considerando tratar-se de um país que não vai além dos 0,3% de católicos?

Não tinha, mas não me espanta. Outra ilustração do crescimento da liturgia tradicional vem-nos do número sempre maior de novos sacerdotes que, a cada ano que passa, escolhem celebrar a sua primeira missa (a chamada “missa nova”) na forma extraordinária do rito romano. Não me refiro a sacerdotes de institutos Ecclesia Dei, mas a sacerdotes saídos de seminários diocesanos. Foi, por exemplo, a escolha feita pela primeira vez na Croácia desde os tempos da reforma litúrgica, por um sacerdote dos arredores de Zagrebe. É desta maneira que muitos sacerdotes encontram o meio de afirmar a sua pertença ao que poderíamos chamar “a geração Bento XVI”, como outrora se falou de uma “geração João Paulo II”.

Aliás, esta geração Bento XVI quase poderia chamar-se “a geração Summorum Pontificum”! A partir do próximo ano, a maioria dos seminaristas que irão ser ordenados terão já entrado no seminário depois da promulgação do motu proprio Summorum Pontificum, e estou convencido de que se assistirá a um novo e acrescido desenvolvimento da liturgia tradicional. Como evidente, esperamos que estes sacerdotes possam fazer valer nas próprias paróquias o seu direito de celebrar de acordo com o Missal do Beato João XXIII.

Não se esqueça também a escolha admirável de tantos sacerdotes saídos das comunidades Ecclesia Dei de celebrarem a sua primeira missa na respectiva paróquia ou diocese de origem. Penso, por exemplo, a um sacerdote italiano que, no dia 23 de Junho passado, chegou do seminário americano da Fraternidade de São Pedro para vir celebrar a sua “missa nova” na Catedral de Velletri, perto de Roma, onde a liturgia tradicional não se fazia ver desde há quarenta anos.


4)  Acha que o pontificado que agora iniciou representa um novo desafio para o mundo tradicional?

Sabemos bem que a história da Igreja não ficou parada em 1962, como também não se completou com o pontificado de Bento XVI. Este novo pontificado do Papa Francisco parece dever ser visto como um convite para uma reflexão sobre o facto de que a liturgia e a tradição da Igreja não são algo de um grupo restrito, isto é, de uma elite, como alguns parecem achar.

Partindo das palavras do Papa, inclinar-me-ia mesmo a defender que a liturgia tradicional, com todo o seu esplendor que nos manifesta a presença de Deus, é de facto uma liturgia que nos leva à humildade. Na liturgia tradicional, a actuosa participatio dos fiéis é uma participação humilde, feita de silêncio, de adoração, de genuflexões, de súplica, de acção de graças… tudo atitudes que nos lembram alguém que sofre, que são próprias do homem que está em dificuldade e que pede ajuda.

Não esqueçamos que por entre os sacerdotes mais célebres elevados à honra dos altares, muitos são os que foram simples padres que poderíamos dizer “do campo”, na medida em que estiveram em contacto com os estratos mais humildes do povo. Penso no Santo Cura d’Ars, no Padre Orione, no Padre Pio… Mesmo se as suas celebrações eram marcadas pela maior das solenidades, elas não excluíam quem quer que fosse, desde o camponês à mãe de família, pessoas que nunca precisaram de estudar latim na Universidade ou em qualquer outra escola de prestígio para se poderem sentir parte integrante da liturgia e do culto que assim se prestava a Deus.


5)  Há quem lamente que a vossa peregrinação possa vir a sobrepor-se a outras iniciativas promovidas ao mesmo tempo por outros grupos ligados à tradição: o que é que nos pode dizer sobre isso?

De facto, quando decidimos voltar a propor a peregrinação para este ano, de imediato se nos levantou a questão da proximidade da mesma a outros acontecimentos da família tradicional, como é o caso da assembleia da Federação Internacional Una Voce. Trata-se de um encontro importante, mas que apenas diz respeito aos responsáveis das várias associações que dela fazem parte em todo o mundo. Nessa altura, perguntámos à FIUV se seria oportuno juntar as duas iniciativas, mas responderam-nos, o que bem se compreende, que o seu programa de trabalho era já bastante minucioso e intenso, pelo que não conviria sobrecarregá-lo com outros compromissos.

Sendo certo que, da nossa parte, também queríamos estar em sintonia com o encerramento do Ano da Fé e que, além disso, devíamos ter em conta as numerosas actividades previstas pela Santa Sé, entendemos ser melhor proceder de modo independente. O mesmo problema surgiu ainda em relação à Fraternidade de São Pedro, que em meados de Outubro festejará em Roma o seu jubileu, os 25 anos da sua criação, que ocorreu aquando do motu proprio Ecclesia Dei, de 1988.

Não esqueçamos além disso que teremos ainda de fazer frente a numerosos problemas e resistências, considerando que há tantas pessoas hostis à missa tradicional e desejosas de nos travar: diria, aliás, que quantas mais iniciativas, melhor, pois isso reforça a nossa presença, além de que a multiplicação das démarches necessárias para a organização dos vários eventos aumenta as hipótese de se encontrar mais pessoas abertas e de boa vontade. Se fizermos sempre tudo juntos, corremos o risco de nos fecharmos numa espécie de rotina, o que não me parece ser o melhor dos resultados. Não quero dizer que devamos ser sempre missionários, mas pelo menos que devemos ter a especial preocupação de nos fazermos conhecer e de fazer conhecer aquilo que representamos, a começar pela liturgia que nos congrega e nos une.


6)  Uma mensagem conclusiva?

Gostaria apenas de lembrar que uma peregrinação pode ser vista sob diferentes aspectos, mas antes de tudo é uma ocasião de penitência na medida em que sempre corresponde a um momento de cansaço e sacrifício. Certamente que não se trata de Santiago de Compostela ou de Chartres, não havendo lugar para grandes caminhadas, mas isso não tira que se possam oferecer ao Senhor os esforços feitos para a peregrinação. Na realidade, o que nos levou a repetir a peregrinação este ano foi o sucesso, almejado mas imprevisto, do ano passado, considerando que todos quantos aí acorreram partiram felizes de terem participado numa obra espiritualmente frutuosa. Cada pessoa regressou a sua casa enriquecida com um pequeno tesouro espiritual que é, só por si, o resultado mais importante da peregrinação. Gostaríamos que acontecesse o mesmo este ano.

Além disso, neste Ano da Fé, também nós somos chamados a dar a nossa contribuição para a nova evangelização, fazendo-o por intermédio da sempre jovem liturgia tradicional da Igreja, mesmo se há quem a considere ultrapassada, senão mesmo, morta. Vemos esta nossa peregrinação como uma ocasião para que algumas pessoas possam descobrir o mundo tradicional: e não falo só da liturgia, falo também dos fiéis que a ela estão ligados. Frequentemente, as críticas feitas ao mundo tradicional são na realidade críticas dirigidas a nós próprios. Somos vistos como pessoas mais interessadas na política do que na oração, e quando nos pomos a rezar, há a suspeita de que rezamos por tudo menos que pela nossa santificação. Também se nos reduz a um grupo social fechado, só preocupado com os próprios interesses, interesses que, além do mais, nem seriam de tipo espiritual, e outras gentilezas desse tipo…

Por muito tempo, pensou-se que só em França é que havia fiéis tradicionais, depois, só na Europa, e agora, graças ao motu proprio Summorum Pontificum, vai-se a ver e descobre-se que afinal se trata de uma realidade universal, que vai das Filipinas à América Latina e da Austrália à Finlândia, passando ainda pela Terra Nova. O que em nada nos espanta, se se considerar que o Missal de São Pio V foi o Missal da Igreja universal durante séculos…

Por isso, poderia dizer que, para quem não conheça a liturgia tradicional, vir até Roma para esta peregrinação é também uma ocasião para a descobrir, mas também para poder travar conhecimento com estes seus irmãos em Cristo. Pela nossa parte, ficaremos bem contentes de ver aqui pessoas que geralmente não encontramos na missa de domingo. Devo dizer, aliás, que sofremos muito pelo facto de nos porem com facilidade num ghetto. Recentemente, o Papa Francisco lançou a todos os católicos um apelo para que se examinassem e vissem se eram fechados e tristes, uma atitude que em si mesma pouco tem de cristã. É possível que também a nós, fiéis tradicionais, nos aconteça sermos assim na nossa vida de todos os dias, um pouco frios e encerrados em nós mesmos, mas acontecerá muitas vezes que adoptemos essa atitude porque a isso fomos empurrados, pois quantas não foram as vezes em que batemos a esta ou àquela porta e no-la fecharam na cara?

Eis porque ficaremos radiantes por nos podermos dar a conhecer melhor, porque a realidade do povo Summorum Pontificum está em lenta evolução e corresponde a uma idade média bastante baixa. A maior parte de nós nasceu ou cresceu na fé e na prática religiosa depois do Concílio, e muitos são os que não chegaram sequer a conhecer a liturgia tradicional antes de 2007. Daí a surpresa de tantos que, de repente, se viram marginalizados dentro da Igreja ou até dentro da sua própria paróquia.

Seria esplêndido, repito, que esta peregrinação pudesse ser também um encontrar-se: como no ano passado, espero que o Cardeal Comastri nos abra a porta central de São Pedro e que consigamos trazer a Roma mais pessoas ainda, entre as quais muitos novos peregrinos para quem esta será a primeira vez em que recitarão as suas orações em latim.





II –  GUIA DO PEREGRINO

A) O programa da peregrinação

Este ano, além da procissão e da Missa em São Pedro, teremos como tempos fortes da peregrinação a Via Crucis pelas ruas de Roma, sexta-feira, a Missa Pontifical de D. Atanásio Schneider na paróquia da Trinità dei Pellegrini, no mesmo dia, e a Missa de encerramento, no domingo, dia de Cristo-Rei, a ser celebrada por D. Fernando Rifan. De notar também, para os clérigos, o encontro com Mons. Fisichella, dedicado ao tema da Nova Evangelização (inscrição prévia junto do capelão da peregrinação, o Rev. Padre Claude Barthe: barthe.cisp@mail.com).

> Quinta-Feira 24 de Outubro, às 19h15: Vésperas solenes de São Rafael cantadas pela Scola Sainte Cécile de Paris e oficiadas por Mons. Guido Pozzo; acolhimento dos peregrinos na paróquia da Trinità dei Pellegrini.

> Sexta-Feira 25 de Outubro, às 9 horas: Terço em Santa Maria in Campitelli, seguido de visitas culturais e espirituais divididas por grupos linguísticos.
11h45: Encontro sacerdotal com Mons. Rino Fisichella, Presidente do Pontifício Conselho para a Nova Evangelização.
16h45: Via Crucis no Monte Palatino, guiada pelos membros da Obra Familia Christi do Padre Riccardo Petroni, Obra que tem a seu cargo a Missa dominical na capela do Palácio Altemps (ponto de encontro junto do Arco de Tito).
19 horas: Missa Pontifical na igreja da Trinità dei Pellegrini, celebrada por D. Atanásio Schneider, bispo auxiliar de Astana, no Cazaquistão, e cantada pela Scola Sainte Cécile de Paris.

> Sábado 26 de Outubro, às 9 horas: Adoração eucarística na igreja de Santa Maria in Vallicella (também dita, Chiesa Nuova), seguida da procissão até à Basílica de São Pedro.
11 horas: Missa Pontifical na Basílica Vaticana, celebrada pelo Cardeal Castrillón Hoyos e cantada pela Scola Sainte Cécile de Paris.
Depois da Santa Missa, piquenique para as famílias nos jardins do Castelo Sant'Angelo.
16 horas: Apresentação do livro de D. Atanásio Schneider: Corpus Christi. La Santa Comunione e il rinnovamento della Chiesa (Libreria Editrice Vaticana 2013).

> Domingo 27 de Outubro, às 9:30 horas: Missa Pontifical da festa de Cristo-Rei, na Basílica de Santa Maria Sopra Minerva, celebrada por D. Fernando Rifan, Ordinário da Administração Apostólica São João Maria Vianney de Campos (Brasil).


B) Informações úteis para facilitar a viagem

Não se requer qualquer tipo de inscrição formal. A peregrinação é aberta a todos, sejam clérigos ou leigos.

O mapa da peregrinação aparece no site da peregrinação e é possível seguir todas as novidades da peregrinação na página Facebook ‘Populus Summorum Pontificum’, que acaba de ultrapassar os 3.500 leitores.