A saudação amiga de Bento XVI ao povo Summorum Pontificum
Carta 54
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A terceira peregrinação internacional do povo Summorum Pontificum a Roma, em finais de Outubro passado, veio demonstrar uma vez mais o vigor, mas também a profunda piedade e a serena alegria, tanto dos fiéis como dos sacerdotes e seminaristas, que vivem a sua fé ao ritmo da forma extraordinária do rito romano. Nestes que são tempos difíceis para a Igreja e para os seus fiéis – pensamos, nomeadamente, em Asia Bibi e noutros mártires do Oriente mais ou menos Próximo – e na sequência de um sínodo sobre a família um tanto eléctrico, o povo Summorum Pontificum reuniu-se em torno do túmulo do Apóstolo São Pedro e manifestou a perene juventude da liturgia romana tradicional. Pela mesma altura, em Lourdes, a Fraternidade São Pio X fazia outro tanto. Apostamos que quer as orações de uns, levadas pelo Príncipe dos Apóstolos, quer as dos outros, apresentadas pela Santíssima Virgem, todas acabaram por subir até junto de Nosso Senhor, Cristo Rei (que no calendário tradicional se festejava nesse domingo), reunidas num único ramalhete espiritual, cujo suave perfume terá sido por certo do agrado do Rei dos reis.



I – OS MOMENTOS FORTES DA PEREGRINAÇÃO

Logo desde as Vésperas solenes de abertura, na quinta-feira, que se tornou evidente que esta peregrinação arrancava sob os melhores auspícios possíveis. Pela primeira vez em três anos, a igreja da Trinità dei Pellegrini ficava repleta logo no momento das Vésperas, que este ano foram cantadas pelos seminaristas do Instituto do Bom Pastor (IBP) e presididas por Mons. Guido Pozzo, secretário da Comissão Ecclesia Dei.

Na sexta de manhã, os peregrinos foram ajoelhar-se aos pés de Nossa Senhora do da Boa Hora, na Basílica de Santo Agostinho, para aí rezarem um terço pelas crianças que hão-de nascer. Para gáudio dos presentes, as meditações (soberbas!) foram acompanhadas pelo canto das Irmãs Franciscanas da Imaculada.

Após a Via Crucis, recitada no monte Palatino, no mesmo local em que São Leonardo de Porto-Maurício estabeleceu e difundiu esta prática no séc. XVIII, os peregrinos regressaram à igreja da Trinità dei Pellegrini para o Pontifical, que se previa fosse celebrado pelo Cardeal Pell, prefeito da Secretaria para a Economia da Santa Sé. Soube-se aí que o Cardeal estava acamado, mas tinha enviado o seu secretário, o Pe. Withoos, antigo oficial da Comissão Ecclesia Dei, que celebrou Missa solene cantada, lendo aí homilia preparada por Sua Eminência e apresentando as suas desculpas. Não obstante esta mudança de planos de última hora, ninguém se mostrou contrariado, nem a multidão de peregrinos e eclesiásticos (jamais se havia visto a igreja da Trinità dei Pellegrini assim tão cheia!), nem os que estavam encarregues do serviço litúrgico, nem, enfim, o coro, che vieira da Basílica de Nossa Senhora de Friburgo, assim se tornando patente que não é a personalidade do celebrante que conta, mas sim o sacrifício oferecido a Nosso Senhor, Sumo Sacerdote. Tendo esta Missa sido prevista para comemorar os 10 anos da associação Juventutem, havia na igreja muitos outros jovens, além dos vinte delegados da associação. Na homilia, lida pelo Pe. Withoos, o Cardeal Pell pediu-lhes que, ao longo do próximo ano, e em vista da segunda fase do Sínodo, explicassem, “na caridade e dando as razões da vossa esperança, a necessidade da conversão, a natureza da Missa e a pureza de coração que é exigida pela Escrituras para que se possa aceder à Santa Comunhão”.

Sábado, depois da adoração eucarística, em que se fez notar uma grande devoção, partiu da sumptuosa e pouco conhecida Basílica de San Lorenzo in Damaso a já tradicional procissão solene em direcção a São Pedro. Perto de um milhar de fiéis, precedidos por uma centena de eclesiásticos, que rumaram pela “Via del Pellegrino” (nem de propósito!) até ao Castelo Sant’Angelo, percorrendo depois a “Via della Conciliazione”, para enfim subirem até à Basílica Pontifícia. À entrada da praça de São Pedro, esperavam-nos outros 200 ou 300 fiéis para se lhes juntar e, assim, poderam atravessar os umbrais da Basílica ao som de “Christus vincit”.

Foi, pois, na presença de mais de 1500 fiéis e eclesiásticos, entre os quais o Cardeal Levada, antigo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que o Cardeal Burke celebrou a Santa Missa, cantada por um grupo de seminaristas do Colégio Norte-americano. À saída da celebração, Sua Eminência houve ainda por bem sair da Basílica pela frente, onde o esperavam muitíssimos peregrinos desejossos de lhe testemunharem a sua gratidão e afecto. A sua alegria era, aliás, redobrada, já que durante a cerimónia tinham sido lidas por Mons. Pozzo duas mensagens: uma, já habitual, do Cardeal Secretário de Estado, em nome do Papa Francisco; a outra, inesperada e muito calorosa, do Papa emérito Bento XVI.



No sábado à tarde, os seminaristas do IBP ofereceram ainda um concerto espiritual, a que assistiram muitos peregrinos, não obstante o cansaço.

No domingo, por fim, foi o Núncio Apostólico francês Mons. François Baquet quem, em Roma, deu por encerrada a peregrinação celebrando a festa de Cristo-Rei na igreja da Trinità dei Pellegrini, e de novo diante de uma assistência bem numerosa. Ao mesmo tempo, na Basílica de São Bento, em Nórcia, o Cardeal Brandmüller dava a sua bênção pontifical a 200 peregrinos que aceitaram o convite dos monges beneditinos que aí celebram em ambos os ritos (“in utroque usu”) para que festejassem com eles a realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo.


II – A MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO

Como nas vezes anteriores, foi com uma mensagem do Cardeal Secretário de Estado dirigida ao Cardeal celebrante em São Pedro que o Santo Padre falou aos peregrinos.

A Sua Eminência Reverendíssima, Cardeal Raymond Leo Burke, Prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, por ocasião da peregrinação a Roma do Cœtus Internationalis Summorum Pontificum, o Santo Padre, Papa Francisco, vem dirigir as suas cordiais saudações, almejando que a participação no pio itinerário através dos túmulos dos Apóstolos possa suscitar uma fervente adesão a Cristo, celebrado que é na Eucaristia e no culto público da Igreja, e venha trazer renovado fôlego ao testemunho da eterna mensagem contida na fé cristã.

Sua Santidade, invocando os abundantes dons do Santo Espírito e a maternal protecção da Mãe de Deus, insta-vos a perseverarem na oração para assim poderdes apoiar o seu ministério universal de sucessor do Apóstolo Pedro e, de todo o coração, outorga a Vossa Eminência, aos prelados, aos sacerdotes e a todos os fiéis presentes nesta santa celebração a Sua implorada Bênção Apostólica, propiciadora de um caminho fecundo pela senda do bem.



III – A MENSAGEM DE BENTO XVI

Lida pela primeira vez na sexta-feira, por ocasião da Missa na igreja da Trinità dei Pellegrini, esta carta do Papa emérito Bento XVI voltou a ser lida de novo em São Pedro por Mons. Pozzo, secretário da Comissão Ecclesia Dei. Trata-se de uma resposta ao convite (*) que o delegado-geral da Peregrinação, Giuseppe Capoccia, tinha dirigido a Bento XVI, durante a audiência que lhe fora concedida a 1 de Setembro de 2014.

Caro Delegado-Geral:

Por fim, encontrei o tempo para lhe vir agradecer a carta de 21 de Agosto último. Fico muito contente por saber que o “Usus antiquus” vive agora na plena paz da Igreja, mesmo por entre os jovens, apoiado e celebrado por grandes cardeais.

Espiritualmente, estarei convosco. O meu estado de “monge de clausura” não me permite uma presença exterior. Não saio da minha clausura senão em casos particulares, quando convidado pessoalmente pelo Papa.

Em união de orações e de amizade,

Seu, no Senhor,

Bento XVI


(*) Eis aqui o essencial da carta com em que Giuseppe Capoccia dirigiu o convite ao Papa emérito:

“Estamos particularmente conscientes de que, com o Vosso motu proprio de 2007, Vossa Santidade pretendeu garantir a conservação na Igreja do tesouro que é o antigo Missal, com a preocupação de não se ferir a estrutura da Igreja: a celebração da forma extraordinária, faz-se, hoje em dia, de modo pacífico, sem polémica, e no seio de paróquias onde habitualmente se celebra a forma ordinária. Como Vossa Santidade já teve a seu tempo a ocasião de afirmar, cada um de nós faz parte de uma certa porção concreta da Igreja, encontrando-se aí ao lado de irmãos e irmãs de todas as sensibilidades. É por isso que a nossa peregrinação junta um importante número de seminaristas diocesanos e de sacerdotes de paróquia, muitos dos quais celebram as duas formas do rito.
[…]
Ousamos, pois, vir pedir a Vossa Santidade, a Quem somos devedores das tantas bênçãos granjeadas pela celebração pacífica e “normal” da antiga liturgia, a graça da Vossa presença amiga por ocasião da Santa Missa do dia 25 de Outubro. Seria uma imensa alegria para todos, sacerdotes, seminaristas e fiéis, poderem rezar na presença de Vossa Santidade, ladeado pelos Vossos Irmãos Cardeais que nos darão a honra de estarem presentes nesse dia”



IV – AS REFLEXÕES DA “PAIX LITURGIQUE”

1) Brasil, Polónia, Estados Unidos, Suíça, Inglaterra, Hungria, Eslovénia, República Checa, e ainda França, Dinamarca, Croácia, Canadá e Paraguai, sem esquecer Portugal e Itália, claro está: um povo internacional que desaguou em Roma no fim de semana de 25 de Outubro, um povo ligado entre si por uma fé comum que se exprime num modo de rezar comum e numa língua também comum. Cada ano, desde 2012, a Peregrinação Summorum Pontificum tem vindo a mostrar que, com o seu motu proprio de 2007, Bento XVI veio realmente dar resposta a um desejo partilhado universalmente por numerosos católicos. O responsável pela página de facebook da peregrinação deu-nos, aliás, a saber que por entre os mais de 13.000 amigos da peregrinação presentes na rede social, os seis primeiros países aí representados são o Brasil, a Itália, os Estados Unidos, a Polónia, as Filipinas e o México.

2) Todos quantos participaram na peregrinação – mais os turistas presentes na Praça de São Pedro – ficaram impressionados pelo elevado número de clérigos jovens que aí se viram, entre sacerdotes, religiosos e seminaristas. Muitos dos seminaristas, nomeadamente os de Roma, diocesanos ou membros de alguma congregação, estiveram presentes nos diversos encontros programados. Tornar visível esta juventude do clero Summorum Pontificum é, de facto, um dos grandes méritos desta peregrinação romana. Mais não é, afinal, do que a manifestação, bem no coração da catolicidade, desse poder de atracção que a liturgia tradicional exerce sobre os jovens - e, de resto, quer se trate de eclesiásticos ou de fiéis. Este forte laço entre o clero jovem e a forma extraordinária do rito romano é uma das grandes fontes de esperança para esta no seio da Igreja. Digam o que disserem as Cassandras deste mundo, entre os jovens o efeito Summorum Pontificum não se desvaneceu com a renúncia de Bento XVI.

3) Duas mensagens: a do Papa reinante e a do Papa emérito. Uma instando ao “eterno testemunho da fé cristã”, a outra expressando, em poucas palavras, é certo, mas quão calorosas e serenamente esperançosas, a proximidade amiga que vem provar que Bento XVI, apesar dos dramáticos meses que teve de atravessar, não se contradiz. A gozosa liberdade que irradia da carta de Bento XVI ao delegado-geral da Peregrinação incita-nos, aliás, a encorajar o Coetus Internationalis Summorum Pontificum para que, no próximo ano, volte a formular o convite ao Papa emérito. Estamos, de facto, convencidos de que o Papa Francisco, que, ao inaugurar um busto de Bento XVI nos jardins do Vaticano, demonstrou uma vez mais o seu afecto e a sua estima pelo seu predecessor, não quereria privar o Papa do motu proprio do afecto dos sacerdotes, seminaristas e fiéis que, graças a ele, podem hoje, (quase) livremente, nutrir-se deste tesouro litúrgico que ele restituiu à Igreja Universal.