Bem-vindo ao Cardeal Sarah, novo “Ministro da Liturgia” do papa Francisco!
Carta 56
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Ao cabo de um longo período de reflexão, o Papa Francisco designou finalmente o Cardeal Sarah, de 69 anos, para vir suceder ao Cardeal Cañizares à frente da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. O Cardeal Sarah, antigo arcebispo de Conacri, Guiné, e que é uma das personalidades mais eminentes do colégio cardinalício, foi um sacerdote muito estimado por São João Paulo II, que o nomeou bispo com apenas 34 anos. Actualmente, era presidente do Pontifício Conselho “Cor Unum”.

Respondendo sempre de bom grado aos convites que se lhe fazem, em particular quando se trata de pregar retiros para sacerdotes, o Cardeal Sarah tinha causado uma forte impressão em 2011, aquando de uma sua homilia, por ocasião das ordenações da Comunidade Saint-Martin (comunidade francesa nascida com a bênção do Cardeal Siri e que celebra o Novus Ordo cuidando de respeitar as instruções gerais do Missal Romano): “Já não há referentes morais comuns. Já não se sabe o que é bom nem o que é mau (…) O que é grave, não é que uma pessoa se engane; é transformar o erro em norma de vida (…) Se tememos proclamar a verdade do Evangelho, se nos envergonhamos de denunciar os desvios graves em matéria moral, se nos acomodamos a este mundo de relaxação dos costumes e de relativismo religioso e ético, se temos medo de denunciar energicamente as leis abomináveis no campo da nova ética mundial, sobre o casamento, a família (em todas as suas modalidades), o aborto; leis, isto é, que estão em total oposição às leis da natureza e de Deus, e que as Nações e as culturas ocidentais promovem e impõem graças aos mass media e às suas capacidades económicas, então as palavras proféticas de Ezequiel cairão sobre nós como uma grave repreensão divina.”

Para saudarmos a tomada de posse do Cardeal, fomos auscultar a reacção de algumas personalidades conhecidas pela dedicação a que se alcance uma maior dignidade e solenidade na celebração da liturgia católica: Mons. Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Santa Maria de Astana, que advoga o regresso ao modo de comungar tradicional, na boca e de joelhos; o Pe. Nicola Bux, grande divulgador da “reforma da reforma” desejada por Bento XVI; Joseph Shaw, presidente da “Latin Mass Society” inglesa, professor em Oxford e pai de seis filhos; e Giuseppe Capoccia, delegado geral do Cœtus Internationalis Summorum Pontificum, que organiza a peregrinação a Roma do povo Summorum Pontificum.





I – A REACÇÃO DE MONS. SCHNEIDER

Mons. Schneider teve a gentileza de nos responder desde o Brasil, onde se encontrava para a apresentação de uma das edições em português de “Corpus Christi”, o seu livro dedicado ao tema: “a comunhão na mão está no centro da crise da Igreja”.

O Cardeal Sarah visitou por duas vezes o Cazaquistão. Ao longo dessas visitas, tive a ocasião de o acompanhar de perto, servindo como intérprete para o russo. Vi nele um homem de Deus, com uma grande vida interior, um homem simples e digno, dotado de uma humildade autêntica. Os seus sermões e as suas palavras aliavam a clareza conceitual à precisão doutrinal e à profundidade espiritual. Pessoalmente, senti-me edificado pelo exemplo dado pelo Cardeal.
Desejo que (à frente da Congregação para o Culto Divino) o Cardeal Sarah possa vir dar uma contribuição eficaz para a verdadeira renovação da vida litúrgica da Igreja segundo a divisa da São João Paulo II: “duc in altum!” Isto é, que ele leve a prática da liturgia até ao cume da sacralidade.

+ Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Santa Maria de Astana.


II – A REACÇÃO DO PE. NICOLA BUX 

O homem que reza é o homem por excelência. O culto é o maior acto que podemos cumprir, porque nos liga à nossa origem, Àquele que é o criador e o salvador do homem. O culto católico sofre hoje de um desequilíbrio entre a sua forma comunitária, que se foi agigantando de modo desmesurado depois do Concilio, e a sua forma pessoal, reduzida a um nada, precisamente por causa daquele excesso de comunitarismo que circunda toda a prática piedosa. É este um dos problemas com que o Cardeal Sarah se deverá confrontar enquanto Prefeito do Culto Divino. (…)
O culto serve para pôr o homem na presença de Deus, é essa a sua missão: permitir o encontro com Deus, encontro que nada tem de evidente nesta nossa época marcada pela descristianização. A reacção de Pedro, que clama “afasta-te de mim, que sou pecador”, mostra-nos bem o quanto a presença de Deus nos é próxima e nos ultrapassa. A liturgia é sagrada porque nos põe na presença de Deus. Ora, como escreveu Bento XVI, esta dimensão sagrada parece ter desaparecido em benefício de uma liturgia-espectáculo – “liturgia-entretenimento”, como é chamada nos Estados Unidos (“litur-tainment”) – que leva muitos fiéis, em particular os jovens, a voltarem-se para a majestade do rito bizantino ou a sobriedade da liturgia romana tradicional, para aí reencontrarem o sentido do mistério. Muitos bispos vão tomando consciência deste fenómeno que caracteriza uma mudança de geração e alimenta o novo movimento litúrgico, e que a Congregação para o Culto Divino deverá ter cada vez mais em conta.

Pe. Nicola Bux, consultor da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.


III – A REACÇÃO DE JOSEPH SHAW (“LATIN MASS SOCIETY”) 

Presidente da “Latin Mass Society”, uma instituição pertencente ao cenário católico britânico, Joseph Shaw é, entre outras coisas, o prolífico responsável pelas “notas de princípio” da Federação Internacional “Una Vox”. Agora, esclarece-nos sobre o que espera o Cardeal Sarah à frente do dicastério para o Culto Divino.

Sob Paulo VI e São João Paulo II, o Culto Divino emitiu uma série de condenações de abusos litúrgicos, mas deixou passar outros, como a comunhão na mão ou o chamamento de meninas para acolitarem. Os defensores do respeito pelas normas litúrgicas tinham então a missão impossível de defender um conjunto de regras súbita e quase universalmente desprezadas, mesmo sabendo que a Congregação para o Culto Divino poderia decidir pô-las de lado a qualquer momento. Sob Bento XVI surgiu um fenómeno novo: uma geração de sacerdotes e de bispos, frequentemente marcados pela missa tradicional, que já não pretendia apenas combater os abusos, mas propunha-se vir ressacralizar a liturgia. Este vasto movimento confrontou-se rapidamente com os limites do que, de facto, é permitido pela forma ordinária. Penso, por exemplo na recitação em silêncio do Cânone, vivamente encorajada pelo Cardeal Ratzinger em “O Espírito da Liturgia”, e fortemente almejado por aqueles sacerdotes, mas que não é prevista na liturgia reformada.
Com o Papa Francisco, os restauradores não desapareceram e é difícil contestar a existência de uma dinâmica desejosa de ver aumentar tanto o sentido do sagrado na forma ordinária como a possibilidade de aceder à forma extraordinária. O Cardeal Sarah depara-se, assim, com o problema de saber como encorajar e guiar este projecto sem reacender a guerra litúrgica nas paróquias.

Joseph Shaw, “Latin Mass Society”.


IV – A REACÇÃO DE GIUSEPPE CAPOCCIA (“COETUS INTERNATIONALIS SUMMORUM PONTIFICUM”)

Contrariamente ao que foi noticiado por muitos meios de comunicação (inclusive o “Vatican Insider”, o principal site vaticanista), o encontro entre o Cardeal Sarah e os sacerdotes que participaram da última peregrinação Summorum Pontificum não teve lugar. De qualquer modo, pensámos que era oportuno perguntar a Giuseppe Capoccia, delegado geral da peregrinação, quais os motivos que haviam levado o CISP a entrar em contacto com o Cardeal.

Infelizmente, não conheço o Cardeal Sarah. Pelo menos, ainda não, porque, agora, terei com certeza ocasião de lhe apresentar as nossas actividades e de lhe pedir a bênção. Teríamos gostado que os sacerdotes e os seminaristas da peregrinação tivessem podido encontrá-lo por duas razões: em primeiro lugar, porque estava então à frente do “Cor Unum”, o organismo que gere as obras internacionais de caridade do Santo Padre e que, por isso, se encontra na primeira linha do apoio prestado às comunidades católicas martirizadas do Médio Oriente; depois, porque sabíamos que era um homem de uma fé profunda, convencido de que a melhor garantia para a unidade da Igreja está na íntima união de cada católico com Deus. Ora, esta união íntima com Deus alimenta-se com a oração privada, mas também com a oração pública dos fiéis, tanto numa como na outra forma do rito romano. Neste sentido, estamos agradecidos ao Papa por esta nomeação que deverá permitir-nos continuar a avançar no caminho da paz e da reconciliação encetado sob João Paulo II, claramente balizado sob Bento XVI e que o Papa, hoje, aparece a confirmar.
Giuseppe Capoccia, CISP

Na véspera da sua nomeação, o Cardeal Sarah tinha feito questão de assistir à apresentação dos Actos do colóquio “Sacra Liturgia”, levada a cabo por Mons. Rey, bispo de Fréjus-Toulon (ver Carta 41).


V – AS REFLEXÕES DA PAIX LITURGIQUE

1) Sendo o primeiro Sumo Pontífice cuja vida sacerdotal e litúrgica se desenrolou inteiramente à sombra da liturgia reformada, o Papa Francisco não tem nem a cultura nem a sensibilidade dos seus predecessores, em particular de Bento XVI, em matéria de celebração do culto divino. Por isso, a nomeação do sucessor do Cardeal Cañizares para o posto de “ministro da liturgia” do Papa era esperada com interesse tanto entre conservadores como entre os modernos. O Santo Padre optou pela paz e pela continuidade, já que o Cardeal Sarah era o sucessor desejado pelo próprio Cardeal Cañizares; e foi também uma opção pela competência, porque, como o prova a homilia citada mais acima e proferida diante da Comunidade Saint-Martin em 2011, o novo Prefeito do Culto Divino é alguém intimamente penetrado pelo sentido do mistério eucarístico.

2) Cumpre notar que um outro cardeal africano, o cardeal nigeriano Arinze, já exercera as funções de Prefeito da mesma Congregação (sucedendo então ao Cardeal Medina e precedendo o Cardeal Cañizares). Também ele era conhecido como partidário, não de uma reforma da reforma, mas de uma celebração digna da liturgia reformada e da sua coabitação harmoniosa com a forma extraordinária. Dava, em particular, uma grande importância à qualidade das traduções em língua vulgar e esteve na origem da revisão da maior parte das traduções litúrgicas num sentido mais conforme com a tradição e com o dogma.

3) “Sereis um grande bispo africano, como Santo Agostinho, se permanecerdes um homem de Deus, um místico e um amigo de Deus, alguém que constantemente se põe diante de Deus numa atitude de amor filial, de adoração, de contemplação, de face a face com Deus, como Moisés. O que é um bispo senão um amigo de Deus? O seu coração está totalmente unido ao coração de Deus. O seu ser, a sua vida, o seu trabalho, os seus projectos, não têm sentido nem consistência senão em Deus, por Deus e em Deus. O bispo é verdadeiramente o amigo de Deus. É seu dever conduzir o povo cristão pelos caminhos deste tempo e na sua peregrinação rumo à eternidade. É seu dever conduzir todas as almas de boa vontade para que façam a experiência de Deus e para que, com Ele, vivam plena e intensamente uma autêntica amizade.” Estas linhas, tiradas da homilia proferida pelo Cardeal Sarah, então secretário da Congregação “Propaganda Fide”, durante a ordenação episcopal de um bispo dos Camarões em 2008, ilustram à perfeição a apreciação que sobre ele tece Mons. Schneider e todos quantos o conhecem. Estamos convencidos de que defronte dos desafios apontados pelo Pe. Nicola Bux e por Joseph Shaw nos seus comentários, a profundidade espiritual e a clareza de expressão do cardeal serão trunfos importantes. De facto, depois da reforma conciliar, é mais pelo exemplo pessoal do que por actos de autoridade do dicastério que os prefeitos do Culto Divino têm podido defender a santidade da liturgia católica.

4) Entre os ecos que conseguimos colher acerca do Cardeal Sarah, se há uma influência prevalecente que parece marcar a sua espiritualidade, ela será a da vida beneditina. Quando era arcebispo de Conacri, Mons. Sarah permitiu a fundação da Abadia de Santa Cruz de Friguiagbé, filha de Santa Maria de Maumont (França), e quis também a fundação de uma filha de Keur-Moussa (Senegal), a Abadia de São José de Séguéya. Conhecido também pela sua amizade por Solesmes, o cardeal é um fino conhecedor do canto gregoriano, mais uma qualidade muito bem-vinda para um prefeito do Culto Divino.

5) Rezemos, pois, para que o Cardeal Sarah, homem equilibrado e dado a escutar, nos permita, segundo o desejo de Giuseppe Capoccia: “continuar a avançar no caminho da paz e da reconciliação.”