No Gabão, evangeliza-se com a Tradição Litúrgica
Carta 58
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A Igreja evangeliza e evangeliza-se través da beleza da liturgia
Papa Francisco, Evangelii Gaudium, 24.


As imagens falam por si: em África, o modo de prestar culto a Deus não é sempre motivo de divisão. Em Liberville, o estaleiro da igreja de Nossa Senhora de Lourdes, onde se celebra segundo a liturgia tradicional, é o orgulho dos habitantes, católicos ou não.



I – Um estaleiro que recebeu a ovação da imprensa do Gabão

“Nossa Senhora de Lourdes, um vulto reluzente”
Artigo publicado no site “Gabon Tribune”, a 26 de Janeiro de 2015

Recentemente, com a conclusão da fachada desta paróquia situada no cruzamento STFO, em Liberville, graças a uma doação pessoal do presidente da república Ali Bongo Ondimba, a Igreja Católica conseguiu um dos seus melhores edifícios dedicados ao culto divino.
Enquanto se aguarda a inauguração oficial da fachada da paróquia de Nossa Senhora de Lourdes (sita em STFO, Liberville), prevista para Agosto deste ano, os responsáveis locais da Igreja Católica, a começar por Mons. Basile Mvé Engobne, assistem com grande satisfação à evolução dos trabalhos que, dia após dia, vão dando uma nova cara a este lugar de culto que havia sido erigido nesta paróquia em 2008.
A conclusão dos trabalhos da fachada de Nossa Senhora de Lourdes foi possível graças a um apoio pessoal do presidente da república, Ali Bongo Ondimba, que com este gesto, fez questão de manifestar o seu reconhecimento não somente para com a Igreja Católica, que conta com milhares de fiéis, mas também, e especialmente, para com a comunidade cristã do Gabão na sua totalidade.
Cumpre observar que a fachada conseguiu alcançar esta extraordinária beleza graças a uma arquitectura clássica romana, e a materiais fabricados artesanalmente em Portugal, os “azulejos”. O desenho, traço do Pe. Willweber, integra à perfeição motivos cristãos bem definidos e de todos conhecidos. No painel central, está representada a adoração do Menino Jesus pelos Reis Magos; o painel está, depois, rodeado pelos santos patronos do Instituto de Cristo Rei, junto com os grandes Arcanjos Miguel e Rafael, que quase parecem estar de vigia à entrada da igreja. São muitos os cristãos do Gabão que esperam com ânsia o evento da inauguração deste edifício, e, tendo em conta os laços sociais que unem as dioceses dos vários países africanos em África, espera-se também a vinda de importantes delegações estrangeiras.




II – As reflexões da Paix liturgique

1) Criado por sacerdotes franceses formados na diocese de Génova (Itália), o Instituto de Cristo Rei Sumo Sacerdote (ICRSP) deve, de facto, o seu nascimento a África. Foi Mons. Obamba, bispo de Mouila, no Gabão, quem permitiu a erecção canónica do Instituto em 1990, e só mais tarde, o Instituto viria a ser acolhido na diocese de Florença, volvidos que eram alguns meses. Assim, os laços entre o ICRSP e o Gabão eram já antigos, quando, em 2008, o arcebispo de Liberville decidiu erigir a paróquia de Nossa Senhora de Lourdes e confiá-la ao Instituto, para que aí se celebrasse a liturgia segundo as normas vigentes em 1962, como havia sido permitido pelo Motu Proprio Summorum Pontificum. Logo desde 2009, o sucesso da paróquia incita o ICRSP a abalançar-se para o projecto de construção de uma igreja que se adequasse às necessidades da comunidade, a qual, alías, ia crescendo cada vez mais. Deve notar-se que não se trata de uma “paróquia pessoal” votada à forma extraordinária, mas sim de uma paróquia territorial ordinária ; ainda assim, não deixa de estar votada à forma extraordinária, como poderia ter acontecido, na Europa, com aquele punhado de paróquias cujos párocos, depois do Concílio, haviam conservado a liturgia tradicional.

2) Num momento em que, na Europa, as raras novas igrejas que se vão construindo têm ares de centro comercial ou desportivo, o ICRSP distinguiu-se pela opção de construir em Liberville, não “um ‘pio hangar’, sem gosto nem encanto, mas sim uma verdadeira igreja, digna da liturgia solene que celebramos” – explicava Mons. Schmitz, vigário geral do Instituto, nas colunas da revista mensal “La Nef”, em Março de 2014. De facto, quem idealizou o projecto escolheu imitar os edifícios religiosos portugueses com fachadas decoradas de azulejos. O modelo desta igreja de Nossa Senhora de Lourdes podia bem ser a famosa “Capela das Almas”, no Porto (cujos mais de 15.000 azulejos, pintados no século passado pela afamada fábrica “Viúva”, quiseram imitar os azulejos portugueses do século XVIII, isto é, da época em que a capela fora inicialmente construída). Esta escolha deliberada, longe de chocar a população local, acabou por colher uma aprovação unânime: os numerosos artigos publicados aquando da conclusão da fachada, louvam em uníssono a beleza “extraordinária” desta fachada de azulejos, e o comunicado emitido pela Presidência da República vai ao ponto de falar de uma “obra prima da arquitectura”. O edifício veio acalentar o orgulho das gentes do Gabão: aí afluem “numerosos fiéis do quarteirão e de toda a cidade, que apreciam de modo particular a beleza da liturgia latina e o canto gregoriano”, diz ainda o comunicado, entusiasta.

3) 50 anos depois da “Primavera” conciliar, esta construção em Liberville é uma lição em inculturação. O seu acolhimento pela população traz à memória o sucesso popular que teve entre os católicos africanos a grandiosa basílica de Nossa Senhora da Paz de Yamoussoukro, na Costa do Marfim, cujo presidente, Félix Houphouët-Boigny, quis que fosse levantada à imagem da Basílica de São Pedro de Roma. A opção pela beleza, e mesmo por um certo deslumbre, aliada a um estilo tradicional, foi posta aqui ao serviço da evangelização dos mais pobres, uma vez que o quarteirão que envolve a paróquia de Nossa Senhora de Lourdes não é, nem de perto, o mais afluente da cidade de Liberville. Em todo o caso, a liturgia latina e gregoriana que se celebra em Nossa Senhora de Lourdes colhe uma aceitação total e unânime. Coisa que, talvez, pudesse fazer reflectir a quantos ainda tenham o seu “programa operativo” pastoral parado nos anos 70…

4) Enfim, neste momento particularmente confuso da nossa história, a conclusão da fachada da igreja de Liberville assoma-se também como um sinal palpável de paz. Que um presidente africano muçulmano chame para si o financiamento de um lugar de culto católico num momento em que, não muito longe dali, milhares de cristãos são massacrados em nome do Islão, é um feito digno de nota! Mais, é uma boa lição a ser seguida por aquele laicado que, em todo o mundo, ainda se mostra mais avesso e fechado. Sobretudo quando o presidente vem explicar que o seu gesto quer ser “não somente um acto de reconhecimento para com (uma) jovem comunidade que desde há 25 anos desenvolve a sua actividade no nosso país, mas, de modo mais amplo, um sinal de apreciação por toda a acção da Igreja Católica no Gabão” (comunicado da Presidência, de 20 de Janeiro passado). A liturgia católica tradicional como motivo de diálogo intercultural, interétnico e inter-religioso? E porque não!