Carta 61 publicada a 15 junho 2015

O MOTU PROPRIO SUMMORUM PONTIFICUM SEGUNDO O CARDEAL SARAH

A inícios de Março de 2015, o Cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, deteve-se longamente na região parisiense, para aí apresentar o livro-entrevista levado a cabo pelo jornalista Nicolas Diat e publicado pelas edições Fayard. Intitulado “Deus ou nada”, o livro oferece um retrato pessoal e cativante de um dos prelados mais discretos do actual pontificado, mas também um dos mais importantes.

Por entre as actividades próprias de uma tourné promocional, o Cardeal Sarah quis também passar algum tempo com os fiéis, e não apenas com a imprensa. Nas paróquias que visitou, foi abordando, em cada uma, um tema particular do seu livro, sem esquecer a liturgia, que foi o tema escolhido para a paróquia de Saint-Eugène-Sainte-Cécile, onde, desde há trinta anos, se celebram ambas as formas do rito romano.

Apresentamos aqui em antestreia o ponto de vista do cardeal guineense sobre o motu proprio Summorum Pontificum de Bento XVI, tal como o mesmo aparece tratado na obra de Nicolas Diat. Ponto de vista que vem confirmar quanto havíamos escrito na nossa carta 56, quando saudávamos a nomeação do cardeal: com o Cardeal Sarah, “o Santo Padre escolheu a paz, a continuidade e a competência”.




O PONTO DE VISTA DO CARDEAL SARAH ACERCA DO MOTU PROPRIO
Extracto de “Dieu ou rien", entrevista a Nicolas Diat, edições Fayard, pág. 400-402.


Pessoalmente, acolhi o Summorum Pontificum com confiança, alegria e acção de graças. É como que um sinal e a prova de que a Igreja, Mater et Magistra, presta atenção a todos os seus filhos, levando em conta as suas sensibilidades. Bento XVI quis promover a riqueza das diferentes expressões espirituais, posto que as mesmas conduzam a uma comunhão eclesial real e verdadeira, fazendo refulgir mais luminosamente a santidade da Igreja.

Penso que este belo motu proprio está directamente na linha daquela que era a vontade dos Padres Conciliares. Na verdade, não podemos fazer de conta que a Sacrosanctum Concilium não dizia: “a Liturgia compõe-se duma parte imutável, porque de instituição divina, e de partes susceptíveis de modificação, as quais podem e devem variar no decorrer do tempo, se porventura se tiverem introduzido nelas elementos que não correspondam tão bem à natureza íntima da Liturgia ou se tenham tornado menos apropriados.”

Na carta que acompanhava o Summorum Pontificum, Bento XVI escrevia: “Aliás, as duas Formas do uso do Rito Romano podem enriquecer-se mutuamente: no Missal antigo poderão e deverão ser inseridos novos santos e alguns dos novos prefácios. A Comissão «Ecclesia Dei», em contacto com os diversos entes devotados ao usus antiquior, estudará as possibilidades práticas de o fazer. E, na celebração da Missa segundo o Missal de Paulo VI, poder-se-á manifestar, de maneira mais intensa do que frequentemente tem acontecido até agora, aquela sacralidade que atrai muitos para o uso antigo. A garantia mais segura que há de o Missal de Paulo VI poder unir as comunidades paroquiais e ser amado por elas é celebrar com grande reverência em conformidade com as rubricas; isto torna visível a riqueza espiritual e a profundidade teológica deste Missal.”

É provável que na celebração da missa de acordo com o antigo missal, compreendamos melhor que a missa é um acto de Cristo e não dos homens. De igual modo, o seu carácter misterioso e mistagógico também se torna mais imediatamente perceptível. Mesmo que participemos activamente na missa, esta não é uma acção nossa, mas de Cristo. Na carta apostólica Vicesimus Quintus Annus, João Paulo II escrevia (*): “Em que consiste uma participação activa? O que ocorre fazer? Infelizmente, esta expressão foi frequentemente mal-entendida e reduzida à sua significação exterior, isto é, à necessidade de um acto comum, como se se tratasse de fazer entrar concretamente em acção o maior número de pessoas possível. A palavra participação remete-nos para uma acção central da qual todos devem participar. Assim, como queiramos descobrir que acção é essa, cumpre que, antes de mais, se trate de precisar que “actio” central será esta da qual devem tomar parte todos os membros da comunidade … Com o termo “actio”, referido à liturgia, entende-se nas fontes o cânone eucarístico. O verdadeiro agir litúrgico … é a “oratio”. Esta “oratio” — a solene prece eucarística, “o cânone” — è muito mais que um discurso, è uma “actio” no sentido mais alto do termo. Com efeito, nela acontece que a acção humana passa para segundo plano, deixando lugar para a “actio” divina, a acção de Deus.”

O motu proprio Summorum Pontificum tenta reconciliar as duas formas do rito romano, e, sobretudo, procura ajudar-nos a redescobrir a sacralidade da santa missa como “actio Dei”, e não dos homens. Tocamos aqui um ponto extremamente importante: o problema da indisciplina que se espalhou, a falta de respeito e de fidelidade ao rito, que pode até chegar a afectar a própria validade dos sacramentos.


(*) Na realidade, as palavras aqui atribuídas a São João Paulo II, teriam sido retiradas, segundo nos parece, de uma obra do Cardeal Ratzinger: “Introdução ao espírito da Liturgia”.