UM RAIO DE SOL ILUMINA A IGREJA ALEMÃ: OS ENCONTROS LITÚRGICOS DE COLÓNIA
Carta 80
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«A liturgia é maior que os liturgistas, de maneira que a celebração dos mistérios sagrados da Igreja segundo as normas fixadas prevalece sobre as ideias pessoais de bispos e sacerdotes.» Cardeal Joachim Meisner, Carta aos organizadores dos Encontros Litúrgicos de Colónia, 2007.

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Não há dúvida de que o ponto alto dos XVIII Encontros Litúrgicos de Colónia, "Summorum Pontificum como fonte para o futuro", foi a leitura da mensagem dirigida aos participantes pelo Cardeal Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino. Um longo texto que completa e reforça a intervenção que o mesmo Prelado fez em Londres por ocasião da conferência Sacra Liturgia 2016, e constitui mais um marco histórico no processo de restauração da liturgia católica, devastada por 50 anos de improvisação e criatividade.

De todo o modo, seria injusto reduzir as jornadas de Colónia apenas aos textos das intervenções, por muito importante que esses possam ser. Deixamos de seguida o relato desses dias, seguido pelas nossas habituais reflexões.


O autor das fotografias oficiais destas jornadas é um jovem profissional ligado à liturgia tradicional, Andreas Düren. Da esquerda para a direita: missa privada por Mons. Sample; missa de abertura celebrada pelo Rev. Padre Cassian; Mons. Sample.


I – O QUE VIMOS EM HERZOGENRATH

Os Encontros Litúrgicos de Colónia têm lugar, desde há já alguns anos, num pequeno burgo tranquilo perto de Aix-la-Chapelle e confinante com os Países Baixos: Herzogenrath. O motivo desta localização é muito simples: é a casa dos organizadores, já que o coordenador é o Pe. Guido Rodheudt, o pároco de Herzogenrath. Ora, ser pároco na Alemanha significa ter meios à disposição, graças ao financiamento institucional que a Igreja recebe dos impostos dos católicos. No caso, isso significa poder dispor de: duas igrejas, uma sala de conferências e uma soberba equipa de paroquianos dedicados. Nenhuma necessidade, portanto, como acontecia antes em Colónia, de ter de suplicar o acesso aos lugares de culto ou de pagar uma renda choruda por salas de conferências em hotéis.

O facto de se estar "em casa", e par mais, num enquadramento agradável em que as deslocações se fazem a pé, permite que o encontro adquira um carácter familiar e autenticamente cristão. Tivemos ocasião de seguir vários congressos sobre liturgia ao longo destes últimos anos, e podemos afiançar que estas jornadas alemãs se distinguem realmente de todas as outras pela sua convivialidade. Além disso, o facto de que as intervenções sejam orientadas num sentido mais pastoral do que académico favorece ainda mais que se crie um ambiente acolhedor, mesmo para os que, como era o nosso caso, não são de língua alemã. Mas estas jornadas não seriam o que são sem o empenho exemplar do Pe. Rodheudt e a paciência sorridente e solícita dos seus paroquianos. Sublinhar as qualidades humanas dos organizadores e dos participantes destas jornadas não é um exercício vão, sobretudo nestes tempos em que se vai espalhando a ideia de que a tristeza e a rigidez seriam notas próprias dos católicos ligados à tradição litúrgica e doutrinal da Igreja.

O primeiro dia dos encontros foi dedicado essencialmente aos sacerdotes membros da "Rede de sacerdotes católicos" que, junto com a "Una Você Alemanha", é uma das organizações que apadrinharam o evento. O convidado de honra das jornadas, Mons. Alexander K. Sample, arcebispo de Portland, decidiu subordinar a sua conferência para o clero ao tema "Liturgia e pastoral: a perda de uma unidade essencial". Para os sacerdotes presentes, na sua maioria diocesanos, não poderia ter havido melhor introdução do que poder encontrar-se com um pastor com um estilo e um ensinamento tão directos quanto entusiasmantes.

Os restantes participantes dos encontros tiveram de esperar pelo fim da tarde para poderem, eles também, descobrir a figura de Mons. Sample, que se encarregou da homilia durante a missa celebrada pelo Rev. Padre Cassian Folsom, beneditino fundador dos monges de Núrcia. Entre os participantes, encontravam-se David et Tiffany, dois jovens americanos que vivem em Hamburgo, , e que lançaram um site e uma cadeia de vídeo dedicados à promoção e à divulgação da tradição católica. Uma iniciativa autofinanciada por estes dois estudantes que têm tanto de talento como de devoção, e que agora difundem uma mensagem intemporal lançando mão dos mais eficazes códigos de design e de comunicação dos nossos dias. Encorajamos vivamente a que visitem o seu site e a sua cadeia Youtube, intitulados "2SPetrvs".

No segundo dia, quinta-feira 30 de Março de 2017, foi também Mons. Sample quem deu o tom aos trabalhos com o testemunho realista daquilo que representou a reforma litúrgica para um católico que, em plenos anos 70, respondia ao apelo da vocação. Qualificando-se a si próprio como «puro produto do Concílio Vaticano II», Mons. Sample explicou o quanto a descoberta da missa tradicional lhe havia aberto os olhos acerca do décalage inacreditável que vai da nova para a antiga liturgia. Corria o ano de 2008, era então bispo de Marquette, e considerou ser seu dever como bispo dar uma resposta apropriada ao motu proprio de Bento XVI aprendendo ele próprio a celebrar a forma extraordinária do rito romano, para assim melhor fazer sua a herança litúrgica da Igreja. Num repente, veio-lhe então à memória a experiência de uma missa de estudantes organizada em redor de uma mesa de bar, com os participantes sentados em redor da mesa, o pão para a eucaristia (com fermento, obviamente) posto num cesto de pão coberto por um guardanapo, e o cálice em terracota: «Era uma situação deliberadamente muito improvisada, pondo uma grande ênfase na percepção da eucaristia como refeição. Nessa época, isso era visto como uma maneira muito pertinente de celebrar a missa, como meio para seduzir os mais jovens. Devo dizer que a mim, já na altura, isso me deixou gelado.» Profundamente impressionado pela solenidade, beleza e respeito que caracterizam a missa tradicional, Mons. Sample começou a interrogar-se sobre o que teria acontecido à renovação litúrgica anunciada pelo Concílio Vaticano II: «Como era possível termos passado tão abruptamente daquela maneira de celebrar a Santa Missa à experiência dessa missa de estudantes cuja memória me viera repentinamente ao espírito?»

Os outros momentos marcantes destas jornadas foram a missa segundo o missal composto por ocasião da constituição Anglicanorum cœtibus de Bento XVI, que criou os Ordinariatos pessoais para os anglicanos regressados à comunhão com a Igreja Católica. Como precisou Mons. Lopes, bispo do Ordinariato da Cadeira de São Pedro, que abrange os Estados Unidos e o Canadá, este missal, cujo uso está reservado aos sacerdotes destes Ordinariatos, inspira-se ao mesmo tempo nos usos anglicanos e na missa de Paulo VI, fundando-se porém no respeito pela constituição conciliar sobre a liturgia. É difícil retirar alguma conclusão da cerimónia a que assistimos – celebrada ad Orientem com rigor e dignidade, em língua inglesa litúrgica –, uma vez que o contexto era claramente algo artificial para se poder chegar a um juízo definitivo.

Na sexta-feira, além da leitura da mensagem do Cardeal Sarah, houve ainda as intervenções de Mons. Graulich, salesiano e subsecretário do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, e do Prof. Kwasniewski, que ocuparam a parte da tarde, consagrada à "Importância do Summorum Pontificum para a renovação litúrgica na Igreja". O Prof. Kwasniewski apresentou o seu livro Resurgent in the Midst of Crisis: Sacred Liturgy, the Traditional Latin Mass, and Renewal in the Church ("Ressurgindo no Meio da Crise: a Sagrada Liturgia, a Missa Tradicional em Latim e a Renovação da Igreja"), já traduzido em polaco e em checo, mas ainda não em francês nem em português (…). Mons. Markus Graulich, um recém-chegado ao grupo dos defensores do motu proprio, expôs ao auditório um resumo da sua obra Zehn Jahre Summorum Pontificum: Versöhnung mit der Vergangenheit - Weg in die Zukunft ("Dez Anos de Summorum Pontificum: Reconciliação com o Passado-Rumo ao Futuro”). Neste livro, Mons. Graulich, que também intervirá no colóquio Summorum Pontificum que assinalará os dez anos do motu proprio em Roma, no próximo dia 14 de Setembro, expõe o seu ponto de vista canónico a propósito do mesmo.

No sábado, 1 de Abril, estas jornadas de Colónia tiveram o seu desfecho do outro lado da fronteira, na Abadia de Rolduc, nos Países Baixos. Mons. Sample celebrou aí uma missa pontifical, ao que se seguiu uma enlevada homenagem a Bento XVI pronunciada pelo escritor alemão Martin Mosebach. A homenagem, em que todos apreciaram a grande elevação moral, intelectual e linguística, foi saudada com uma longo, aliás longuíssimo aplauso. Belíssima conclusão, portanto, para um evento que nos proporcionou uma soberba, e, confessemo-lo, inesperada perspectiva sobre uma porção da Igreja alemã, bem viva, imersa em profunda oração, e que de bom grado sorri, quando não chega mesmo a rir a bom rir.


Mons. Sample, Martin Mosebach e o Pe. Rodheudt agradecendo à equipa de voluntários.


II – AS REFLEXÕES DA PAIX LITURGIQUE

1) Entre os sacerdotes presentes em Herzogenrath, pudemos cruzar-nos com vários religiosos, mas também com alguns seminaristas, dos quais, alguns, tendo deixado as respectivas dioceses de origem, foram estudar na Polónia, para aí poderem beneficiar de um ensino mais clássico do que se lhes oferece nos seminários alemães. Entre os religiosos, além do prior dos trapistas de Maraiawald, também chamavam a atenção as batinas brancas de um grupo de jovens premonstratenses da abadia de Hamborn, perto de Duisbourg. Encorajados pelo respectivo prior, estes cónegos que abraçaram a letra e o espírito do motu proprio Summorum Pontificum têm a liberdade de aprender a celebrar tanto uma como a outra forma do rito romano. Claro está que estes jovens premonstratenses pareciam incarnar à perfeição o tema dos encontros de Colónia: "Summorum Pontificum como fonte para o futuro".

2) Cumpre insistir sobre o facto de que, à parte o superior alemão da Fraternidade São Pedro e, no último dia, um cónego do Instituto Cristo-Rei, na sua quase totalidade, os sacerdotes presentes (uns sessenta) eram diocesanos e religiosos que não pertencem ao mundo Ecclesia Dei. Feliz surpresa, entre os participantes das jornadas, estava também o superior do distrito alemão da Fraternidade São Pio X, o Pe. Udressy, perfeitamente à vontade entre todos os demais confrades. Como teve a bondade de nos explicar, em face de um episcopado, quase todo ele conquistado pelo modernismo mais devastador, os sacerdotes alemães de sensibilidade tradicional ganharam desde há muito o hábito de cerrar fileiras e de conviverem entre eles sem dar uma importância além do necessário às "divisões" que os possam separar – elas próprias, acrescente-se, cada vez mais desprovidas de fundamento.

3) É preciso ter consciência de que esta excelente manifestação da liturgia tradicional em terras alemãs é como que um oásis no meio do deserto religioso em que se transformou a igreja deste país. Financeiramente muito rico, como o suíço, o catolicismo germânico – junto com aquele helvético (e o mesmo se diga daquele belga, ali tão perto) – está em estado de coma avançado. As vocações desaparecem dramaticamente, os bispos de além-Reno geram uma igreja "funcionarizada", que conta com 3000 "responsáveis pastorais" (leigos assalariados dotados de um diploma em Teologia investidos em funções de responsabilidade) e 4500 "assistentes pastorais" (leigos munidos de diploma técnico em catequese ou liturgia), que, cada vez mais, preenchem administrativamente funções outrora pertencentes aos clérigos. Quanto ao ensino, especialmente no campo moral, há já vários lustros que esse zarpou das margens do dogma católico.

4) Aliás, no final dos encontros, o Pe. Rodheudt, que assegura a organização das jornadas, esfriou os ânimos dos participantes, ao anunciar que já não tinha mais forças para continuar. Além da dimensão humana e pessoal desta decisão, completamente respeitável, parece que se levantaram obstáculos ligados à situação eclesial: a diocese de Aix-la-Chapelle, de que depende a paróquia de Herzogenrath, teria um projecto para fundir várias paróquias, entre as quais esta. Se isso viesse a acontecer, à cabeça da nova entidade paroquial deixaria de haver um pároco para passar a haver uma equipa de colaboradores paroquiais, o que faria depender a acção e a missão de cada sacerdote das decisões da própria equipa. Muito concretamente, isso quereria dizer que o Pe. Rodheudt deixaria de dispor dos meios que tem vindo a pôr ao serviço deste importante encontro. Rezemos para que um outro de entre os seus colegas aceite receber o testemunho e que estas belas jornadas possam durar por muito mais tempo.