Thiberville, um escândalo francês!
Carta 16
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Depois de ter conseguido a cabeça do pároco de Thiberville, após uma longa cabala de dois anos, o bispo de Évreux, Mons. Nourrichard, decidiu agora excomungá-lo pelo simples motivo de que ele … continuava a residir na sua casa paroquial. Casa paroquial que, aliás, o Padre Michel ocupa legitimamente uma vez que é o município de Thiberville, proprietário da casa e solidário com o seu pároco desde o início da polémica, que a pôs à sua disposição.

A história de Thiberville é simples: um bispo progressista cuja diocese está em plena fase de descristianização quer desmantelar a última paróquia que ainda vive tentando acertar sempre o seu relógio pela hora católica. O pároco local, que aí está já lá vão mais de vinte anos, recusa esta decisão e recebe o apoio dos seus fiéis e das autoridades locais. O bispo vem à paróquia nos começos de 2010 para tentar impor ele mesmo a sua decisão, mas é literalmente posto a andar pelos paroquianos.

Não obstante isso, o bispo persiste na sua vontade de fundir a paróquia de Thiberville com um novo agregado territorial e acaba por conseguir que o Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica lhe dê razão, tribunal perante o qual o Padre Michel recorrera da decisão em causa.

Um novo pároco, conforme aos pontos de vista do bispo, é então nomeado, ao mesmo tempo que o Padre Michel se acha sem um campo de apostolado bem definido. O sarilho é que o município de Thiberville decide deixar que o uso da casa paroquial continue entregue ao Padre Michel, porque, no quadro dessa nova reorganização territorial, de qualquer modo, a casa não iria ser habitada pelo novo pároco. E isso, este bispo, tido por muito aberto e tolerante, que de bom grado assiste a ordenações de mulheres na igreja anglicana, isso ele não aceita. Daí a excomunhão “motu proprio” do Padre Michel…

Sem entrarmos em mais pormenores acerca do mérito deste triste caso, podemos ainda assim fazer um primeiro balanço do acontecido, sobretudo do ponto de vista litúrgico.


UMA PARÓQUIA DEMASIADO CATÓLICA

Thiberville, antes: 14 igrejas a cargo do Padre Michel que formavam o conjunto católico mais vivo e mais missionário da diocese de Évreux; a igreja de Thiberville estava repleta nas três missas de domingo, um ponto de apoio para as outras igrejas, os enormes batalhões de crianças, todas a frequentarem a catequese, os fiéis a participarem activamente, uma multidão de acólitos, as confrarias, todas as igrejas da área magnificamente restauradas, as missas à semana bem guarnecidas de assistência, os enterros celebrados pelo próprio pároco, etc. Em resumo, um dos últimos lugares de província onde a comunhão entre todos os católicos era vivida de maneira exemplar, um modelo da aplicação da vontade do Papa, com as missas “ordinárias” do mais piedoso que há, e a missa “extraordinária” a inserir-se aí no meio do modo mais natural. Já voltaremos a este ponto.

Thiberville, depois: uma missa dominical lúgubre que não junta mais que uma trintena de pessoas; uma dezena de fiéis da antiga paróquia mais uma vintena doutros das paróquias agora agregadas a Thiberville. E as missas à semana? Suprimidas. E as crianças da catequese? Só ficaram umas vinte, no máximo. Em resumo, Thiberville deu entrada no lote comum das paróquias francesas e começa a descobrir essa “crise da Igreja” a que até agora havia escapado graças ao zelo do seu pároco.

Por entre as outras vítimas deste caso, temos também a “reforma da reforma” desejada pelo Santo Padre e em relação à qual, como já devem ter percebido, Mons. Norrichard não mostra grande sensibilidade. De um momento para o outro, eis que toda a diocese de Èvreux se encontra sem uma missa dominical segundo o missal do Beato João XXIII.

E era Mons. Nourrichard que, sem rebuço, declarava que a questão litúrgica nada tinha que ver com o caso Thiberville.

Até ser posto na prateleira, o Padre Michel celebrava ele mesmo todos os domingos às 17 horas, em Thiberville, a missa tradicional, depois das missas da manhã, celebradas de acordo com a forma ordinária, do modo mais reverente e ortodoxo possível.

É preciso dizer que o Padre Michel até tinha antecipado profeticamente as medidas de bom senso que viriam a ser promulgadas pelo Papa Bento XVI no Motu Proprio, e já havia muitos anos que tinha feito coexistir pacificamente na sua paróquia as duas formas do único rito romano. Na realidade, esta missa tradicional semanal é celebrada em Thiberville desde 1996. À época, o Padre Michel tinha respondido favoravelmente a um pedido de fiéis que desejavam uma novena de missas celebradas de acordo com o missal tradicional pela alma do Padre Montgomery, falecido em Novembro de 1996.

O Padre Montgomery era um antigo pastor escocês que se tornara padre católico e que tinha sido o pároco de Chamblac (a alguns quilómetros de Thiberville) desde 1956 até à sua morte. Como pároco, ele tinha conservado a missa tradicional na sua paróquia e os sucessivos bispos de Évreux — incluindo o tão polémico Mons. Gaillot que João Paulo II afastou do seu ministério em 1995 — nada tiveram a dizer contra, a tal ponto este pároco era amado pelos seus paroquianos. Foi assim que esta novena, de certo modo, se tornou perpétua e foi celebrada pacificamente na ex-florescente paróquia de Thiberville, sem cessar, ao longo de quinze anos.

De certa maneira, e mais ainda, de uma maneira certa, o Padre Michel conseguira fazer da sua paróquia um laboratório de enriquecimento das duas formas do único rito romano. Ele era, em suma, um pároco da “reforma da reforma”, perfeitamente de acordo com o espírito do Motu Proprio Summorum Pontificum.


UM BISPO QUE DESDENHA OS SEUS PADRES, OS SEUS FIÉIS E O PAPA!

Se voltamos a insistir sobre este triste caso é porque, entre outros aspectos, ele é sintomático da oposição episcopal ao Motu Proprio de Bento XVI.

O bispo bem poderá dizer que a decisão de suprimir a paróquia de Thiberville e de deixar o Padre Michel, que pelos padrões eclesiásticos é ainda jovem (61 anos, ou seja, ainda a 14 anos da sua reforma, e tendo presente que a diocese de Évreux está tão deserta de padres como a grande maioria das dioceses francesas), sem apostolado não é motivada por questões litúrgicas, mas os factos aí estão à vista.

Não foi preciso muito tempo para que Mons. Nourrichard e os seus colaboradores viessem pôr cobro a esta magnífica experiência do Motu Proprio a ter lugar numa pacífica paróquia campestre.

Para dizer a verdade, depois da partida do Padre Michel, a missa tradicional das cinco da tarde, na verdade, não foi suprimida de um dia para o outro. De facto, chegou-se ainda a programar a celebração desta missa para o dia 6 de Março, como se pode ver neste vídeo.

As imagens são ao mesmo tempo dramáticas e escandalosas. Dramáticas, porque mete dó o mal-estar do padre em face de uma liturgia que é manifesto que ele não conhece. Escandalosas, porque vemos a liturgia ser aí maltratada e não conseguimos deixar de pensar na responsabilidade do bispo neste “simulacro” de celebração.

Estas imagens são a prova de uma ausência total de respeito e de caridade por parte de Mons.Nourrichard pelos seus padres e pelos seus fiéis. Ele mandou lá um padre que nada sabia das rubricas da forma extraordinária para que aí a celebrasse sem qualquer preparação diante de um grupo de fiéis desamparados.

As imagens falam por si próprias: não fora o padre ter anunciado ao começo da missa que ia celebrar na forma extraordinária, e ninguém o conseguiria adivinhar! Novas leituras, orientação errada, cor dos paramentos sem relação com o tempo litúrgico, a leitura feita pelos fiéis e, sobretudo, o padre completamente perdido, sem saber o que fazer, nem quando. A tal ponto, que o pobre homem, incapaz de chegar ao fim da tentativa, a meio da celebração passa para o rito de Paulo VI …

Diante de tamanha confusão, somos levados a perguntar-nos se não é do próprio Papa que o bispo de Évreux faz pouco caso: nos mesmos pontos em que Bento XVI não cessa de trabalhar no sentido da reconciliação entre os cristãos, vemos Mons. Nourrichard a semear a discórdia e o ressentimento, chegando inclusive a usar o Motu Proprio Summorum Pontificum como instrumento de retorsão. Assim é fácil compreender o desânimo e a cólera que hoje se fazem sentir entre os católicos de Thiberville.

E para acalmar as coisas não chegam as palavras do bispo que vem explicar que, se vier a ser o caso, a celebração da forma extraordinária poderá recomeçar quando um grupo estável de fiéis apresentar um pedido … Pois, até às últimas semanas, se havia um lugar onde a definição de “um grupo estável” não levantava qualquer problema, esse lugar era precisamente Thiberville, onde um tal grupo existia há já 15 anos.

Um grupo estável? Mons. Nourrichard, andamos a enganar-nos?