Bispos fiéis ao coração do Papa
Carta 18
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No momento em que a Santa Sé anunciava o afastamento do muito subversivo Mons. Morris, bispo de Toowoomba, na Austrália (1), do outro lado do globo os católicos franceses viam-se confrontados coma a ordenação do novo bispo de Rodes, Mons. François Fonlut. Preferindo, tal como Mons. Morris, a gravata ao colarinho romano, Mons. Fonlupt foi formado na muito progressista escola do arcebispo de Clermont-Ferrand, Hippolyte Simon. Certamente que a Providência tudo pode, inclusive fazer de um pároco modernista um bispo ortodoxo, contudo esta nomeação abalou profundamente os católicos franceses ligados à reforma da reforma desejada pelo Santo Padre. Cabe dizer que a chaga aberta pela questão Thiberville (ver a nossa carta 16) está ainda bem viva entre eles.


Bispo Fonlupt em Lourdes

A reacção mais marcante é a de 21 sacerdotes que decidiram escrever ao cardeal Ouellet, Prefeito da Congregação para os Bispos, implorando a Roma que nomeie bispos conformes com o pontificado de Bento XVI. É esta carta que, tendo sido tornada pública pelo blog Osservatore Vaticano, vos propomos este mês como tema de reflexão, tão universalmente que é partilhado o anseio de prelados que estejam de harmonia com o coração do Santo Padre.

Cumpre precisar previamente que, se bem que o nome dos signatários não tenha sido publicado, a carta não é anónima e foi assinada por 4 religiosos, 2 membros de institutos Ecclesia Dei e 15 padres diocesanos. Quase todos eles têm menos de 50 anos e alguns até foram ordenados recentemente. Numa palavra: trata-se de sacerdotes desejosos de contribuir para a “nova evangelização” querida pelo Papa, desejosos de pôr fim tanto à guerra litúrgica como à secularização pós-conciliar.


O DOCUMENTO

A Sua Eminência, o Cardeal Ouellet
Prefeito da Congregação para os Bispos


Eminência,

Gostaríamos de vos dar conhecimento da incompreensão de larga parte dos sacerdotes e dos católicos de França quanto às actuais nomeações episcopais.

No nosso país, desde há três ou quatro decénios que o catolicismo se tem reduzido e continua a reduzir-se dramaticamente (desmoronamento constante da prática dominical, do número de sacerdotes, de religiosos, dos catequistas, das vocações, etc.). Não é impossível que muito em breve a Santa Sé se veja forçada a transformar algumas dioceses francesas em administrações apostólicas, se tivermos em conta o número irrisório dos sacerdotes que aí estão no activo.

Contudo este catolicismo enfermo não está morto. Transformado pela terrível provação da secularização, ele tem ainda — por quanto tempo? — a capacidade de se revitalizar neste seu estado de minoria: escutismo, escolas verdadeiramente católicas, movimentos, peregrinações, múltiplas comunidades novas, comunidades tradicionais jovens e vivas, novas gerações de sacerdotes realmente missionários, seminaristas diocesanos e numerosas vocações potenciais do tipo “geração Bento XVI”, possibilidades litúrgicas e vocacionais oferecidas pelo Motu Proprio Summorum Pontificum, numerosas jovens famílias cristãs, agrupamentos muito activos de apoio à vida. Este é o catolicismo que quer o virar de uma página mortífera: abusos litúrgicos, uma pregação desastrosa relativamente à moral do casamento, o complexo anti-romano latente, práticas sacramentais desviadas (bênçãos de “re-casamentos” dos divorciados recasados, absolvições colectivas), uma catequese sobre a eucaristia duvidosamente católica, etc.

Neste contexto, as nomeações episcopais parecem-nos ininteligíveis. Não poucos bispos franceses estão hoje crescentemente desfasados deste novo catolicismo. E é uma enorme decepção ver que, ainda hoje sob o Papa Bento XVI uma parte, daqueles que são como se se reproduzissem por cooptação, tem ainda um espírito “geração 68”, mais ou menos, puxada ao centro, e que a outra parte, pelas necessidades de um consenso que todavia é impossível, é escolhida de entre homens com uma timidez reformadora extrema.

Os sacerdotes, religiosos e clérigos que nós representamos estão desejosos de que se dirija a esta sociedade mais e mais indiferente um anúncio claro do Evangelho. Além disso, eles estão animados por um verdadeiro desejo de reconciliação e de paz entre todos os católicos franceses, que hoje se sabem largamente minoritários. Mas para pôr em marcha uma nova pastoral, cumpre escolher novos pastores. Dá-se o caso de serem hoje numerosos os sacerdotes entre os 50 e os 60 anos com um perfil pastoral psicológica e intelectualmente sólido e que podem responder perfeitamente às necessidades vitais do catolicismo francês.

Eminência, a salvação do catolicismo francês depende da nomeação de bispos que venham responder às suas reais necessidades e às suas verdadeiras expectativas.

Queremos exprimir a Vossa Eminência o nosso respeito mui profundo e religioso, e suplicamos se digne transmitir ao nosso Santo Padre, o Papa, a expressão da afeição mui devotada e respeitosa dos seus fiéis filhos, sacerdotes de Jesus Cristo.


***

(1) Bispo de Toowoomba desde 1993, Mons. Morris, designadamente, e para além de tomadas de posição heterodoxas acerca da ordenação de mulheres e da validade das celebrações protestantes, havia imposto na sua diocese a absolvição colectiva como sacramento da penitência. Desde 2007 que se recusava a submeter-se às decisões disciplinares da Santa Sé a seu respeito.