O Centro São Paulo: como servir a nova evangelização através da tradição
Carta 31
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Desde 2005 que um antigo atelier em Sentier vem sendo usado como um lugar, ao mesmo tempo improvável e fecundo, para uma experiência ligada à tradição e ao serviço da evangelização. Mais precisamente, ao serviço do que o próprio Papa Bento XVI definiu como a “nova evangelização”, isto é, a evangelização destinada a acordar a fé das velhas nações católicas. Na origem deste projecto, encontramos um sacerdote atípico, saído das fileiras da Fraternidade São Pio X, o Padre Guillaume de Tanoüarn. Foi em sua companhia, e na de um dos seus fiéis, que fizemos uma visita pelo Centro São Paulo, um local onde a liturgia tradicional, a iniciativa cultural e a ebulição intelectual seguem o diapasão do amor a Cristo. Um local, porém, cuja vitalidade continua a ser cuidadosamente ignorada pelo cardeal arcebispo de Paris.


I – Retrato do Centro São Paulo

É um dia de semana e estamos defronte do café “Croissant de Paris”, onde foi assassinado Jean Jaurès. Encontramo-nos com o Padre Tanoüarn que acaba de sair da sua missa da manhã na companhia dos seus fiéis. Claro que é já de há muito que conhecemos o Padre Tanoüarn e temos vindo a seguir o seu percurso singular, tanto teológico como filosófico. Mas a verdade é que nunca chegámos a prestar a devida atenção a este apostolado que ele tem vindo a desenvolver no Centro São Paulo desde há quase sete anos, isto é, desde que abandonou a Fraternidade São Pio X.

Já sabemos que em 2006 esteve entre os fundadores do Instituto do Bom Pastor (IBP), um instituto Ecclesia Dei intensamente querido pelo próprio cardeal Castrillón, para que aí pudessem ser acolhidos os sacerdotes da Fraternidade desejosos de voltar a estar em plena comunhão com Roma. Também sabemos que o IBP é uma jovem realidade de composição variada e que recentemente foi objecto de uma visita canónica dirigida pelo cardeal arcebispo de Bordéus, Mons. Ricard. Mas à Paix Liturgique não interessa apenas tomar posição sobre as questões internas das comunidades amigas. Não. De facto, o que desejamos fazer desta vez é compreender a acção levada a cabo no Centro São Paulo, medir a sua amplitude e procurar saber como é que ela se insere na paisagem diocesana parisiense, sabendo bem até que ponto esta se mostra fechada à experiência da tradição.

Antes de mais, «Porquê São Paulo?»; é o que perguntamos ao Padre Tanoüarn :
«Em primeiro lugar, porque São Paulo é o missionário por excelência, e eu queria abrir um centro com vocação missionária. Não nos devemos dar por satisfeitos com o público já rotulado de ‘tradi’, que é cada vez menos militante; é preciso ir procurar recursos noutros lados.
Em seguida, porque sou particularmente sensível àquela que é a teologia de São Paulo, de Santo Agostinho e de Pascal. Uma teologia fundada sobre o pecado original e sobre a graça santificante (Rom 5, 8); uma teologia da salvação que, hoje, já não vemos ser pregada pelo medo de se esvaziar as igrejas.
E finalmente, por não haver em São Paulo uma espiritualidade particular, mas antes a universalidade própria dos começos.
»

A vocação missionária do Centro São Paulo exprime-se, em primeiro lugar, na própria localização: a Rua São José, no coração do Sentier, um quarteirão ao mesmo tempo muito activo, à semana, o que o torna aberto ao mundo do trabalho, e com um bom acesso de metro, a permitir que os fiéis aí se desloquem ao fim-de-semana. Trata-se ainda de um lugar suficientemente distante do Quartier Latin para não parecer ser um concorrente ou um parasita de Saint-Nicolas-du-Chardonnet, onde por mais de dez anos o Padre Tanoüarn foi o coadjutor.

Fisicamente, o que vemos no Centro São Paulo são 400 m2 divididos em 4 andares na Rua São José, que é uma das ruas mais características deste quarteirão (Sentier) onde a actividade agora em declínio dos comerciantes de tecidos, nas últimas décadas, tem vindo a fazer vagar bons imóveis, que estão baratos, mas que frequentemente são de estrutura bizarra e irregular. E o CSP, cuja generosidade dos fiéis cobre a renda, é um desses edifícios.

Dando para a rua, a capela é uma grande sala com pilares maciços que em nada favorecem a visão do altar por parte dos fiéis, tanto mais que à esquerda há uma escada moderna que se levanta em direcção aos pisos superiores. No primeiro andar, encontram-se as salas de aulas e os gabinetes dos sacerdotes. No segundo, é a casa. Também na cave, a que se acede da capela, há vários compartimentos agradáveis, mas que ainda assim não deixam de ser quartos de cave, destinados a servir de arrumos, mas também a momentos de convívio do centro.

De três missas dominicais em 2005, o CSP passou agora a ter cinco celebrações — 9, 10,11, 12h30 e 19h — asseguradas por dois ou três sacerdotes. O Padre Tanoüarn é assistido permanentemente por um dos seus confrades, e depois, vai-se apoiando na ajuda extra de sacerdotes que estão de passagem. O resultado é que cada domingo o centro consegue atrair cerca de 250 fiéis, apresentando além disso uma forte taxa de renovação dos mesmos. E à semana, o Centro oferece duas missas quotidianas.

A este programa litúrgico, que já é bem denso para uma estrutura deste género, é preciso ainda juntar aquilo que na realidade constitui a originalidade do centro: a catequese, que é orientada em particular para o baptismo de adultos; as conferências e debates sobre os temas mais variados; os cursos e serviços destinados a favorecer a integração social dos participantes. Com efeito, um número significativo dos fiéis e frequentadores habituais do Centro, são, à imagem de uma boa parte da população parisiense, pessoas solteiras ou que vivem isoladas.

«Com as nossas conferências, os nossos cursos de actualização e de aprendizagem profissionais, pretendemos dar a possibilidade às pessoas, e nomeadamente a quem trabalha sozinho, de entrarem em contacto com a tradição social da Igreja», explica este sacerdote. A todos oferecer um acesso quotidiano à missa, à espiritualidade e à cultura católicas, eis em poucas palavras o desafio assumido desde há sete anos neste local improvável da Rua São José.

Quando está para terminar a visita às instalações, é Willy, o fiel que acompanha o Padre Tanoüarn, que expressa o seguinte comentário: «O local é estreito e pouco cómodo, e com tantas capelas parisienses vazias…»

Falemos, então, de Willy, já que é um exemplo simbólico desta obra que se leva a cabo no Centro São Paulo. Parisiense, da zona de Saint-Antoine, Willy é um jovem católico, não obstante os seus já 80 anos. Com efeito, foi baptizado apenas na Páscoa de 2009 no CSP — claro está. Uma conversão que a nós nos intrigou e que Willy conta com simplicidade e alguma malícia: «Tenho amigos na Provença, não muito longe do Barroux, e que têm ordinariamente um pão extraordinário. De cada vez que lhes dava os parabéns por isso, diziam-me que era o pão feito pelos monges das redondezas, logo precisando que: “Eles fazem um bom pão, mas são maus párocos.” Compreendendo que o que se lhes censurava era o facto de serem demasiado tradicionais, isso acabou por aguçar a minha curiosidade e por me levar a descobrir o Barroux. Aí fiz um primeiro retiro que puxou outro, até que mostrei aos monges o meu desejo de ser baptizado. E foram eles que então me falaram da existência do Centro São Paulo.»

Para Willy, que não tinha qualquer ideia da liturgia católica, o culto tradicional pareceu-lhe ser como que uma evidência, a tal ponto o achou “certo”. Em seguida, quando passou do escaninho protegido do Barroux para o desconforto do Centro São Paulo, confessa ter sentido «cólera ao descobrir em que condições se desenrolava o culto». Até ao dia em que lá se convenceu que isso era, afinal, nem mais nem menos do que o «desnudamento do nascimento de Cristo no estábulo de Belém». Sem quaisquer ilusões sobre uma eventual tomada em consideração do CSP por parte das autoridades eclesiásticas parisienses, Willy desejaria, ainda assim, que a diocese concedesse um mínimo de atenção fraterna aos seus fiéis e aos seus sacerdotes, já que, segundo ele, não restam dúvidas de que haveria «ainda mais fiéis, se o local de culto fosse apropriado».

Nisso, ele está de acordo com o Padre Tanoüarn que nos revela ter pedido ao arcebispo a disponibilização de uma faixa horária numa igreja, ao domingo à tarde, para aí poder celebrar e evangelizar. Explicando-nos que o Motu Proprio veio alterar as relações com o clero, garante-nos que os párocos parisienses se mostrariam prontos a oferecer um espaço ao Centro São Paulo sob reserva apenas da carta branca episcopal. Para ilustrar a evolução das relações entre o clero Summorum Pontificum e o clero diocesano, ele testemunha-nos que, agora, a celebração pontual da liturgia tradicional, por ocasião de baptismos, missas de aniversários ou casamentos, só muito raramente levanta problemas nas paróquias.

Pelo seu lado, o Padre Tanoüarn não hesita em manifestar a sua comunhão com o seu bispo e a sua fidelidade a Bento XVI participando, desde 2007, na missa crismal: «O Papa deu-nos o quadro teológico duma verdadeira paz da Igreja. É preciso ser-se fiel a este quadro sem artimanhas», explica ele. Só um comprometimento sincero e humilde, o que não quer dizer ingénuo e submisso, contribuirá, segundo ele, para «engendrar o capítulo seguinte do tradicionalismo de resistência», para que se assista então ao nascimento dos «tradis da Nova Evangelização». «O nosso desejo, o nosso desafio», conclui, «é o de mostrar que a liturgia tradicional é missionária e pode estar ao serviço da reevangelização».


II – As reflexões da Paix Liturgique

1) Há, na história do Centro São Paulo, uma coincidência que o seu fundador não deixa, aliás, de sublinhar: este centro nasceu em simultâneo com o início do pontificado de Bento XVI. Logo na missa inaugural do centro, no 1º de Maio de 2005, festa de São José operário, tinha o Padre Tanoüarn definido esta concomitância como um «intersinal em que a Providência se manifesta». Um Papa chamado José, uma capela situada na Rua São José, sob o patronato de São José e inaugurada num dia consagrado a São José… sim, não há dúvida de que a Providência sabe fazer bem as coisas. E fá-las tão bem, que seria a São Paulo que o novo Papa haveria de dedicar o primeiro dos anos jubilares do seu pontificado!

2) É incontestável que a sorte do Centro São Paulo se ressente da falta de generosidade com que são tratados, em Paris, mas não só, os fiéis e os sacerdotes que regressam à plena comunhão com Roma. Nestes tempos de reconciliação entre Roma e Écône, de que nos alegramos, convém lembrar aos pastores aquela que é a sua obrigação primeira: a caridade para com as almas que lhes estão confiadas.

3) A fim de explicar, logo desde o seu primeiro sermão no Centro São Paulo, o duplo patronato de São José – o guardião – e de São Paulo – o evangelizador –, o Padre Tanoüarn empregou esta frase: «Não há difusão sem conservação; ou então, estaríamos a enganar-nos a nós mesmos.» Uma divisa que poderia perfeitamente aplicar-se ao pontificado de Bento XVI…

4) Nesta altura em que alguns prelados franceses, a começar pelo cardeal de Paris, continuam a catalogar os fiéis de acordo com a sua cor litúrgica ou política, cumpre saudar a coragem do Padre Tanoüarn por ousar propor uma abordagem a um tempo espiritual, cultural e litúrgica da Fé. Aliás, um dos fiéis do CSP define este centro como: um «lugar de salvaguarda da liberdade de espírito. E é também um lugar de caridade onde, por fim, não se vê os tradis brandirem a sua bandeira com acrimónia, nem invectivarem ou banirem quem quer que seja. É por isso que muitos encontraram aí o SEU lugar próprio, onde se tem o direito de PENSAR sem se estar sujeito aos comandos ou “diktats” modernistas…ou integristas.»