França: a proporção das ordenações para a forma extraordinária continua a subir
Carta 32
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Cada vez mais exangue, a igreja de França continua a ter os olhos cravados no número anual das ordenações que, todos os anos, têm lugar no mês de Junho. Ora, os números deste ano de 2012 vêm confirmar uma vez mais a tendência: diminuição do número global de seminaristas e das ordenações, e aumento contínuo da proporção de candidatos e de sacerdotes para a forma extraordinária. E para lá dos números, as análises no terreno dão mostras também de uma lenta tradicionalização do clero diocesano francês … ou, mais exactamente, do que dele vai restando.

I – OS NÚMEROS DE 2012

Na nossa carta de Abril, dedicada aos efectivos de seminaristas, anunciávamos que, infelizmente, 2012 iria revelar-se um ano pobre relativamente ao número de novos sacerdotes. E, de facto, num comunicado de 15 de Junho, a Conferência Episcopal Francesa veio anunciar que, este ano, apenas seriam ordenados 96 novos sacerdotes diocesanos. Como o número do ano passado foi de 109, isso representa uma diminuição de 11% para este ano. Trata-se, na realidade, de um retorno ao número de 2010. Entretanto, todos os anos, a igreja de França vê reformarem-se cerca de 800 sacerdotes.

Já no que toca às ordenações segundo a forma extraordinária, calculamos para este ano 20 ordenações de sacerdotes franceses com vocação diocesana, dos quais 9 pertencentes às comunidades Ecclesia Dei e 11 ligados à FSSPX. Em 2011, houve 18 novos sacerdotes franceses, dos quais 11 da Fraternidade São Pio X. Assim, se em 2011 se podiam contar seis sacerdotes diocesanos por cada sacerdote “extraordinário”, este ano a proporção á será de 5/1. Mesmo versando sobre números muito baixos e, portanto, sensíveis a qualquer alteração, mesmo que mínima, pode ainda assim notar-se que a tendência é pois favorável à forma extraordinária.

Além disso, graças ao acompanhamento que fazemos regularmente das novas entradas nos seminários franceses, estamos em condições de afirmar que 30% dos candidatos franceses ao sacerdócio diocesano estão hoje animados pelo espírito Summorum Pontificum – quer isto dizer que, amanhã, têm a firme intenção de, ocasionalmente ou de modo regular, vir a celebrar na forma extraordinária do rito romano. Esta observação do que se passa em França está de acordo com o que se observa em muitos outros países: os futuros sacerdotes aspiram a celebrar in utroque usu.


II – A LENTA TRADICIONALIZAÇÃO DO QUE RESTA DO CLERO DIOCESANO

Este é um dado que todos os formadores diocesanos de futuros sacerdotes agora assinalam: a atracção exercida pelas formas tradicionais é cada vez mais explícita entre os seminaristas. O desejo de numerosos jovens sacerdotes e futuros sacerdotes, de exercerem o seu sacerdócio também segundo a forma extraordinária do rito romano representa, a medio e longo prazo, um potencial crescente para o desenvolvimento da missa tradicional.

Que não se imagine, contudo, que estamos a caminhar para um “retorno” inelutável da liturgia tradicional. Do ponto de vista estritamente litúrgico, não devemos esquecer as dificuldades com que a forma extraordinária se tem de confrontar, e isto por maior que possa ser o desejo dos futuros levitas e dos novos sacerdotes de a celebrarem.

a) Por um lado, é ainda muito poderosa a resistência de uma parte dos clérigos em todos os escalões (incluindo os leigos clericalizados) que desejam conservar os dados adquiridos do “espírito do Concílio”.

b) Por outro lado, há também o hiato cultural e cultual provocado pela reforma secularizante que se seguiu ao Concílio Vaticano II. O conhecimento do latim — cujo ensino nos seminários franceses é, na melhor das hipóteses, opcional (um pouco por razões ideológicas, e em grande medida pelo desmoronamento generalizado das humanidades em França) — tornou-se muito fraco entre muitos dos seminaristas e dos novos sacerdotes. Mais ainda, no corpo formado pelos jovens eclesiásticos franceses desapareceram o habitus e os hábitos rituais imemoriais que constituíam a liturgia romana. Por conseguinte, nota-se frequentemente uma deficiência que ocorre ainda ultrapassar entre aqueles sacerdotes que desejam celebrar na forma extraordinária ou que dela se querem aproximar (e o mesmo vale para os fiéis, mesmo para os que mostram uma grande boa vontade): assim que se adopta a forma extraordinária ou que dela nos aproximamos, logo nos vemos imersos num universo ritual que, de facto, se veio tornando estranho — quanto mais não fosse, pelo facto de, à diferença do universo litúrgico do Vaticano II, ali tudo é essencial e poderosamente ritual —, ainda que, imediatamente e de modo bem evidente, ele logo nos ofereça uma grande riqueza em matéria de realce da transcendência e de pedagogia da fé, e o sentimento muito forte de se assentar raízes numa tradição imemorial. Aquele facto não deixa, no entanto, de ser uma deficiência, que não é de todo impossível ultrapassar, mas que requer a dose de esforço adequada.

Mas também não é menos verdade que a porosidade entre clero e liturgia “ordinários” e clero e liturgia “extraordinários” vai sendo cada vez maior. Há que estar consciente de que esta vai ser um elemento que não se pode deixar de ter em conta numa reorganização realista do tecido sacerdotal francês nestes tempos de extrema penúria.

Em França, os sacerdotes vindos das comunidades Ecclesia Dei e da FSSPX, assimiláveis a sacerdotes diocesanos (portanto, sem incluir os religiosos), são mais de 300. Estes sacerdotes dão assistência a mais de 400 locais de culto dominical e garantem as capelanias de uma rede de uma centena de escolas não subsidiadas (50 estabelecimentos para o grupo Fraternidade São Pio X e cerca de 40 para o grupo Ecclesia Dei). No dia de amanhã, será o bom senso a exigir que se utilize estes sacerdotes nas dioceses, e sem deixar de ter em conta a sua escolha no que toca à celebração da missa segundo a forma extraordinária. Muitas áreas das dioceses, e são cada vez mais e maiores, estão confrontadas com uma Igreja que se vai rarefazendo, se é que, na prática, não está já a desaparecer, e tudo pela falta de sacerdotes. Uma das dinâmicas da nova evangelização deveria consistir logicamente em conter esta desertificação utilizando as forças tradicionais existentes.


III – AS REFLEXÕES DA PAIX LITURGIQUE

Perante isto, não nos resta senão repetir e completar as reflexões que já expusemos na nossa carta sobre as estatísticas dos seminaristas nas dioceses francesas.

1/ É evidente que este aumento das vocações e das ordenações para a forma extraordinária não vai ser suficiente, muito longe disso, para se suprir o deficit sacerdotal em França, que requereria 20 000 seminaristas, e que estivessem já em formação, quando, na realidade, em 15 de Novembro de 2011, eles não passavam de 850: 710 nos seminários diocesanos e 140 para a forma extraordinária, dos quais 50 para a FSSPX. Seria preciso pelo menos 20 vezes mais seminaristas para que se chegasse a cobrir o actual deficit. Mas será essa uma razão suficiente para se não ter em devida conta os 140 seminaristas tradicionais actualmente existentes?

2/ A liturgia reformada de após o Concílio, pelo menos na interpretação que dela se faz, parece ser um dos principais elementos a ter permitido o maremoto da secularização e da evaporação da missão. Já ao contrário, tudo quanto vai “de braço dado” com a liturgia tradicional – catequese, formação doutrinal dos jovens, escolas, movimentos, e, acima de tudo, vocações sacerdotais – tem um valor missionário que é manifesto e que, no mínimo, vai limitando os estragos. Os milhares de jovens peregrinos das peregrinações tradicionais do Pentecostes atestam a vitalidade sacramental e missionária das comunidades cristãs que vivem ao ritmo da missa na forma extraordinária. Das suas fileiras saíram já várias gerações de jovens sacerdotes que aí estão a provar a fecundidade espiritual e vocacional das comunidades tradicionais.

3/ Mais de 15% dos novos sacerdotes franceses são “gerados” por apenas 4% dos católicos praticantes – aqueles que, cada domingo, têm acesso à liturgia tradicional. O número dos jovens que se encaminham para a forma extraordinária tem tudo para continuar a crescer, basta que se ponham os meios para isso (os quais, em primeiro lugar, dependem dos que estão encarregues da formação dos clérigos para a forma extraordinária, isto é, os responsáveis das comunidades Ecclesia Dei, e depois, das capacidades psicológicas e pastorais de acolhimento dos responsáveis diocesanos). De acordo com o bom velho princípio que diz que amamos aquilo que conhecemos e praticamos, não restam quaisquer dúvidas de que quanto mais se propuser nas paróquias a forma extraordinária, mais ela virá a ser descoberta pelos jovens que então ignoravam a sua existência e que, assim, poderão ficar em condições de fazer a sua escolha pela forma extraordinária. Numa certa grande cidade francesa, a paróquia ligada à forma extraordinária dá em média 5 vocações por ano, dos quais alguns para o seminário diocesano. Não podemos garantir que, se todas as grandes paróquias dessa mesma cidade praticassem a forma extraordinária, não tardaria para que o seminário diocesano se viesse a tornar pequeno, mas podemos estar certos de que, pelo menos, as novas entradas aumentariam. Sobretudo se se desse algum espaço à forma extraordinária no seu programa semanal …

4/ Dito de outra maneira: se é certo que um em cada seis novos seis sacerdotes é “gerado” por menos de 4% dos católicos, cumpre também dar-se conta de que este viveiro vocacional excepcional (por comparação com a actual situação de falência) ainda poderia ser muito mais impressionante. Está bem patente que a “oferta” de celebrações tradicionais precisaria de responder melhor à “procura”, pois, sendo embora certo que são menos de 4% os católicos praticantes que podem viver a sua fé ao ritmo da forma extraordinária, as nossas sondagens mostram com uma constância notável que isso não é senão um terço dos fiéis que desejam poder assistir regularmente à liturgia tradicional nas respectivas paróquias (e na diocese de Rennes, eles chegam mesmo aos dois terços dos fieis da diocese!). Caso se abrisse mais as paróquias à celebração da forma extraordinária do rito romano, satisfazendo assim o desejo dos fiéis e permitindo descobrir esta forma litúrgica a quantos a não conhecem, o número dos seminaristas Summorum Pontificum continuaria a aumentar, vindo a influir imediatamente na curva das vocações diocesanas.

5/ Notemos, para terminar, que 43 dioceses francesas, num total de 90, não ordenarão qualquer sacerdote este ano… De entre estas 43 dioceses, algumas há que não contam sequer ordenar qualquer sacerdote durante os próximos anos. Seria interessante debruçar-nos, caso a caso, sobre o tipo de acolhimento dispensado ao Motu Proprio de Bento XVI nessas dioceses. Pois que, se é certo que a própria evolução da sociedade pode explicar uma parte deste drama, a verdade é que também não lhe é completamente estranha a rejeição, ou mesmo a perseguição, das famílias ligadas à forma extraordinária …