Carta 74
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Uma Primeira Comunhão verdadeiramente extraordinária... aos 101 anos!


Da mihi animas, cetera tolle”, que podemos traduzir por: “Dai-me almas, e pouco me interessa o resto”. Esta divisa dada por São João Bosco aos salesianos foi também escolhida por um jovem brasileiro no momento da sua ordenação sacerdotal, o Pe. Domingos Sávio Silva Ferreira, membro da Administração Apostólica São João Maria Vianney. E Deus, que é Bom, escutou-o: teve a graça de poder dar a primeira comunhão a uma brasileira com … 101 anos! Uma história que temos a alegria de poder partilhar convosco esta semana.


A Primeira Comunhão de Dona Penha.


I – UMA PRIMEIRA COMUNHÃO EXTRAORDINÁRIA

«Desejo dedicar-me ao serviço das almas. Como São João Bosco, quero consagrar-me aos jovens. São eles o futuro da Igreja. Mais do que ninguém, eles têm necessidade de Deus, e sofrem os ataques do mundo e do meio em que vivem.»

Era assim que falava o Pe. Domingos Sávio Silva Ferreira no seu facebook, no passado Fevereiro – dois meses após a sua ordenação sacerdotal, que teve lugar a 12 de Dezembro de 2015, dia da festa de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira das Américas, pelas mãos de Dom Fernando Rifan, bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney. Também chamada de “Campos”, o nome da diocese onde está implantada a Administração SJMV é, à escala diocesana, o equivalente a uma paróquia pessoal que se dedica à forma extraordinária do rito romano. Esta espécie de diocese pessoal para a forma extraordinária conta com perto de 35.000 fiéis e cerca de trinta sacerdotes. O Pe. Silva Ferreira foi o último dos sacerdotes a juntar-se às fileiras.

Como acontece frequentemente com o plano de Deus, sempre imperscrutável para as inteligências humanas, o Pe. Silva Ferreira – cujo nome próprio é o do muito querido discípulo de São João Bosco, São Domingos Sávio! – queria trabalhar com os jovens, e, em vez disso, eis que se vê a servir como capelão num lar de terceira idade. Só que, nesta casa, dedicada a Nossa senhora do Carmo, esperava-o uma graça imensa: a salvação da alma da Senhora D. Paula Penha, uma das residentes, de 101 anos!

Como foi divulgado pela agência ACI Digital, num artigo de 28 de Setembro de 2016 (aqui), a Senhora D. Paula Penha chegou a este lar no ano passado. Os hóspedes da casa podem assistir à Santa Missa que se celebra regularmente na capela da casa, que é mantida por religiosas. «Dona Penha, a princípio, acompanhava as outras senhoras nas celebrações; depois, um dia, pediu para se confessar», conta Josiane, uma das empregadas da casa. «O Pe. Silva Ferreira deu-se conta de que ela nunca tinha comungado, e pediu então às irmãs que a preparassem para poder receber a Sagrada Comunhão.»

Terça-Feira, dia 27 de Setembro de 2016, esta senhora de 101 anos teve, pois, o privilégio e a grande alegria de poder receber pela primeira vez a Sagrada Eucaristia das mãos deste jovem capelão. «Todos quantos a acompanharam puderam notar que era realmente o que ela queria. Apesar dos seus 101 anos, ela é uma pessoa bem lúcida. Preparou-se e recebeu a Comunhão de todo o coração», testemunhou Josiane. «Foi um momento belíssimo, que nos lembrou a todos que nunca é demasiado tarde para se receber a Sagrada Eucaristia, e que a todos nos confortou na nossa fé.»

Este acontecimento, que é extraordinário a todos os títulos – desde logo, pela forma em que foi celebrada a Missa pelo Pe. Silva Ferreira – é a prova de que nem o tempo nem os respeitos humanos conseguem levar a melhor sobre quem verdadeiramente procura a Deus. Além dos outros residentes e do pessoal terem assistido à cerimónia da Primeira Comunhão, esta teve ainda direito a fotografias no facebook, partilhadas por dezenas de pessoas, e viria ainda a ter um grande eco graças ao artigo da agência ACI, principal agência de informação católica do mundo sul-americano.


O Pe. Silva Ferreira com os pais durante a cerimónia da sua ordenação.


II – AS REFLEXOES DE «PAIX LITURGIQUE»

1) A Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, dirigida desde 2002 por Dom Fernando Rifan, nasceu da resistência de um bispo brasileiro às perturbações pós-conciliares. Bispo da Diocese de Campos (Estado do Rio de Janeiro) de 1949 a 1981, Dom Castro Mayer recusou-se a abandonar o missal tradicional e deu origem a uma fraternidade sacerdotal fiel à tradição doutrinal e litúrgica da Igreja: a União Sacerdotal São João Maria Vianney. Tendo sido um dos co-consagradores, com Mons. Lefebvre, dos bispos da Fraternidade São Pio X, em 1988, Dom Castro Mayer teve como sucessor a Dom Licínio Rangel, que, nos finais de 2000, nas vésperas de ser chamado para junto de Deus, obteve o reconhecimento canónico da União Sacerdotal, que então foi erigida como uma estrutura ad hoc: a Administração Apostólica Pessoal, como que uma diocese que junta sacerdotes e fiéis ligados à liturgia tradicional.

2) Uma das características dos sacerdotes dedicados à celebração da liturgia tradicional é a de estarem prontos para a missão. Esta primeira comunhão extraordinária não é mais, afinal, do que a demonstração de todo o trabalho apostólico que o Pe. Silva Ferreira levou a cabo, um jovem sacerdote que arde com a aspiração de poder trabalhar pelo bem das almas, e que compreendeu que a missão começa o mais perto possível do sacrário, aí onde Jesus-Hóstia nos chama e nos ouve.
Em muitas dioceses no mundo inteiro, e em particular na Europa, há falta de sacerdotes para o serviço das almas. No entanto, são bem poucos os bispos que ousam confiar a sacerdotes ordenados para a forma extraordinária certos ministérios “transversais” como o de capelão de lares de terceira idade, hospitais, estabelecimentos de ensino ou comunidades religiosas (1). Não só estes sacerdotes estariam plenamente qualificados e motivados para esses ministérios, como, ao mesmo tampo, também dariam resposta aos pedidos locais para aplicação do motu próprio Summorum Pontificum. Deste modo, aliviar-se-ia duplamente a carga dos restantes sacerdotes.

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(1) Fazemos notar, todavia, que Mons. Piat, bispo de Port-Louis e recém-nomeado cardeal, pediu a um sacerdote do Instituto de Cristo-Rei Sumo Sacerdote que preenchesse o cargo de capelão dos hospitais locais, o que também permitiu que se desse resposta ao pedido do “coetus fidelium” local, que, a partir de agora, pode contar com a celebração regular da liturgia tradicional.