O MISSAL ROMANO, desde as suas origens até ao Summorum Pontificum
Carta 76
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O Pe. Claude Barthe é um sacerdote diocesano francês, ordenado no final dos anos 70 em Écône por Mons. Lefebvre e, actualmente, capelão do "Coetus Internationalis Summorum Pontificum". Autor de numerosíssimos artigos e obras sobre liturgia (La messe une forêt de symboles, ed. Via Romana, 2011) e questões teológicas (Penser l'œcuménisme autrement, ed. Via Romana, 2014), acabou agora de lançar um compêndio tão exaustivo e minucioso quanto possível sobre a história do missal romano, tema relativamente ao qual, pelo menos na área de língua francesa, não havia qualquer estudo recente. Este livro, pela bibliografia actualizada e pelos documentos que apresenta, será muito útil para os seminaristas e estudiosos, mas também para o conjunto dos sacerdotes e fiéis que se propõem conhecer adequadamente a história da Santa Missa.

No centro deste trabalho do Pe. Barthe, está a obra litúrgica empreendida pelo concílio de Trento e pelos Papas que se lhe seguiram, enquanto esta obra constitui a canonização do culto romano tal como fora definitivamene estabilizado na Idade Média. O autor concentra a sua atenção sobre o período que se abre após esta canonização, cobrindo um panorama que vai de São Pio V a São João XXIII, isto é, quatro séculos de liturgia, que comçam com a bula Quo primum, de 1570, e vão até à última edição típica do missal tridentino, de 1962.



Em primeiro lugar, o Pe. Barthe trata largamente a história da missa romana desde as suas origens, concentrando-se sobre as ligações entre o culto cristão e o culto da sinagoga, o seu "gémeo falso"; o nascimento do cânone romano; o enriquecimento franco-romano; e, em seguida, sobre a difusão do missal na Cúria romana segundo o uso que dele fizeram os Papas tanto em Avinhão como em São Lourenço in Palatio. Lembra, além disso, que o missal romano, tal como hoje o conhecemos e usamos, foi fixado no seu conjunto já no século XI.

Na parte final da obra, o Autor interessa-se pela espantosa (auto-)sobrevivência do missal tridentino após o concílio Vaticano II, até que, de nonvo, foi en fim plenamente reconhecido pela autoridade romana com o motu proprio Summorum Pontificum. Observa, por fim, que a história do missal tridentino está longe de se poder considerar concluída, uma vez que ele representa, hoje mais do que nunca, a garantia da transmissão da lex orandi em toda a sua riqueza e sem corrupção alguma. Neste sentido, este estudo revela-se também como uma espécie de história para o futuro.

Como que piscando o olho, quis a Providência que esta obra, intitulada "História do missal tridentino e das suas origens" (ed. Via Romana), fosse lançada nas livrarias francesas na quinta-feira 27 de Outubro de 2016, no preciso momento em que o Pe. Barthe declarava aberta, em Roma, a quinta peregrinação internacional "Populus Summorum Pontificum". No dealbar deste ano de 2017, em que festejaremos o décimo aniversário da liberação do missal tridentino pelo Papa Bento XVI em 2007, temos a alegria de propor uma recensão deste estudo formulando os nossos votos de que ele também se possa vir a difundir nas partidas do mundo de língua portuguesa.

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Fiel ao seu título, este livro dedica-se ao estudo do tema que se propôs em três partes. Partindo do desenvolvimento, por vezes paralelo, da liturgia da Igreja e da sinagoga, a primeira parte, que compreende uma centena de páginas, examina a origem tanto do novo culto, consumação do antigo, como dos sacramentários, dos missais e do ordo, e ainda do venerável cânone romano em si mesmo, sem esquecer os abundantes comentários alegóricos que o Autor tanto aprecia: «Este comentário espiritual da liturgia tem o seu início no próprio Novo Testamento. Já o evocámos a propósito do livro do Apocalipse, que precisa que as sete lâmpadas são os sete espíritos de Deus, que as taças de ouro, repletas de perfumes, representam a oração dos santos, que o fino linho, de que está revestido o Esposo, significa a virtude pura dos santos» (p. 99).

Com dimensão semelhante, a segunda parte - ultrapassando, por vezes, o estrito quadro do missal, a fim de considerar as tendências musicais e arquitectónicas, o jejum eucarístico e o desaparecimento das Vésperas dominicais - traça em pormenor a história do missal desde aquele «herdado pela Cúria no século XI» até à edição típica publicada alguns meses antes da abertura do concílio Vaticano II. Acerca das últimas edições: «É surpreendente que tenham sobrevindo estas publicações, e em especial a do missal, na medida em que havia já uma comissão que preparava activamente o projecto de texto conciliar sobre a liturgia, anunciando uma reforma muito profunda. Pode ser que os dois prefeitos que se sucederam na Congregação dos Ritos e que procederam a estas publicações de 1960-1962 […] tenham querido deixar um marco limite como testemunha. Era aliás lógico que se reunisse todo o trabalho realizado pela Comissão de Pio XII, para assim se chegar a uma mais clara codificação» (p. 201).

A última parte do livro, muito mais breve (e que fornece talvez a chave de leitura para a imagem que adorna a capa: a celebração de uma missa solene entre as ruínas da catedral de Münster em 1946), trata do motu proprio Summorum Pontificum e da curiosa situação que estamos a viver, em que «esta legislação condiz muito mais com uma situação de facto, formalizando-a e racionalizando-a, mais do que disciplinando-a. Na verdade, o missal tridentino tal como nos é hoje restituído, porque o foi apesar de, e mesmo contra uma reforma litúrgica que estava destinada a substituí-lo, encontra-se por isso mesmo numa espécie de estado de autogestão». «Assim, realizar-se-ia agora, a favor da liturgia pré-conciliar, e de maneira algo cómica, a famosa "inversão da pirâmide hierárquica", tão cara, por exemplo, a Yves Congar» (p. 220).

Hoje, uma fatia crescente dos católicos, reconhecem que a liturgia, como a própria vida, é transmitida e recebida, e não inventada ex nihilo por cada geração. Donde muitas questões litúrgicas reclamarem não apenas repostas literais ou alegóricas, mas também respostas históricas, sobretudo quando se tem presente que uma resposta histórica não consiste em indicar somente o período ou o autor de uma certa inovação (seja ela retida pela posteridade ou não), mas também as circunstâncias que presidiram à respectiva introdução. Este estudo histórico, escrito num estilo de fácil leitura e encorajando a uma reflexão quase alegórica sobre o seu tema, aparece apetrechado de amplas referências em nota de rodapé dando acompanhamento à meditação aí contida, o que bem testemunha não apenas o domínio do Autor sobre o tema, mas também o amor evidente que nutre pela Santa Missa.

(fonte: ceremoniaire.net)