Na periferia finlandesa, há um sacerdote extraordinário
Carta 55
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A Finlândia é para a Igreja uma terra quase ignota, é uma dessas periferias pelas quais deverá ainda passar a nova evangelização. Assim, a ordenação do Pe. Anders Hamberg, no passado dia 7 de Junho, pode ser vista come um facto extraordinário, já que foi a sexta ordenação de um sacerdote católico na Finlândia desde os tempos da Reforma, imagine-se! Mas é-o também enquanto acontecimento litúrgico, porque no dia seguinte, 8 de Junho, o Pe. Hamberg aparecia de novo na Catedral de Saint-Henri para celebrar a sua Missa Nova segundo o Missal tradicional, isto é, na forma extraordinária do rito romano…

Esta semana, propomo-vos a nossa tradução das principais passagens de um dos artigos que deram conta deste acontecimento, seguida de algumas das nossas reflexões. E aproveitamos para vos desejar um Santo Natal!



I – EM HELSÍNQUIA, UMA ORDENAÇÃO RARA E CHEIA DE SIGNIFICADO
Artigo de Alberto Carosa para Catholic World Report, 23 de Junho de 2014

Por entre os desenvolvimentos mais recentes do catolicismo nos países escandinavos, cumpre assinalar a ordenação sacerdotal de Anders Hamberg, no passado dia 7 de Junho – é o sexto sacerdote católico finlandês desde os tempos da Reforma. A ordenação, celebrada em sueco (língua-mãe do Pe. Hamberg) e em latim, por Mons. Teemu Sippo, SCJ, bispo de Helsínquia, teve lugar na Catedral de Saint-Henri, onde o Pe. Hamberg já havia recebido a ordenação diaconal das mãos de Mons. Sippo, a 28 de Setembro de 2013.

Estava já a par deste acontecimento, assim como doutras actualidades do catolicismo finlandês [o autor do artigo é casado com uma finlandesa, n.d.r.], como o caso da abertura da primeira igreja católica de Kuopio, capital da Savónia, na região central do país, mas, até há pouco tempo, desconhecia que o Pe. Hamberg iria celebrar a sua primeira missa na liturgia tradicional. A 8 de Junho, domingo de Pentecostes, com a autorização de Mons. Sippo, foi, com efeito, celebrada uma missa cantada segundo o Missal de 1962 na Catedral de Saint-Henri, onde, uma vez por mês, desde que haja um sacerdote disponível, a forma extraordinária passa a ser ordinária.

Esta celebração é o resultado directo, não apenas do Motu Proprio Summorum Pontificum de Bento XVI, que, em 2007, liberalizou a celebração da liturgia tradicional – que o Papa Francisco qualificou de um “tesouro para a Igreja” –, mas também da decisão do anterior Papa de erigir, em 2008, uma paróquia pessoal na Cidade Eterna, para os fiéis ligados à tradição católica. Esta paróquia, a Santissima Trinità dei Pellegrini, está confiada à Fraternidade de São Pedro (FSSP). A igreja, situada no centro histórico de Roma, defronte do quarteirão do Trastevere, mundialmente conhecido, foi inicialmente construída, sob a direcção de São Filipe Neri, para os peregrinos que acorriam à cidade.

A sua missão específica, que era a “de conduzir os fiéis a uma fé zelante e ardente através da liturgia, das procissões e das devoções públicas”, como o recorda o site da paróquia, continua ao cuidado da FSSP, que se esforça por fazer reviver tais práticas, caídas entretanto no esquecimento e/ou deliberadamente abandonadas, a começar desde logo pelo rito antigo.

De facto, a ordenação do passado dia 7 de Junho e a celebração que se lhe seguiu no dia 8, da primeira missa do Pe. Hamberg, podem contar-se entre os frutos dessa missão. Ao travar conhecimento, há já alguns anos, com o Pe. Hamberg, quando ele ainda era seminarista em Roma, fiquei ao mesmo tempo surpreendido e feliz por saber que ele, como eu, tinha o hábito de ir à Trinità dei Pellegrini aos domingos. Antes, nunca nos tínhamos encontrado, somente porque íamos à Missa a horas diferentes.

[...]



II – AS REFLEXÕES DA PAIX LITURGIQUE

1) Os católicos na Finlândia não vão além de 2 por cada 1.000 habitantes (10.000 para mais de 5 milhões de habitantes). Tanto basta para se perceber que se trata, de facto, de uma terra de evangelização e até que ponto a ordenação do Pe. Hamberg constitui um grande acontecimento para esta “micro-comunidade”! Que, depois, este sacerdote recém-ordenado tenha escolhido a liturgia tradicional para celebrar a sua primeira missa é uma prova mais da universalidade deste tesouro litúrgico, doutrinal e espiritual, que Bento XVI houve por bem decidir que voltasse a estar ao alcance de todos os sacerdotes católicos e, por isso mesmo, também de todos os fiéis.

2) Perene juventude e fecundidade vocacional do rito tradicional: a opção feita pelo Pe. Hamberg de celebrar a sua primeira missa de acordo com a liturgia tradicional ilustra à perfeição estas linhas do Cardeal Cañizares (*): “O Motu Proprio [...] desencadeou um fenómeno que para muitos foi surpreendente e que representa um verdadeiro ‘sinal dos tempos’: o interesse que a forma extraordinária do rito romano suscita entre os jovens que jamais a haviam conhecido como forma ordinária. Este interesse manifesta uma sede de ‘línguas’ que saiam do ordinário, e que nos transportam para novas fronteiras nunca antes imaginadas por muitos pastores. Abrir o tesouro litúrgico da Igreja a todos os fiéis tornou possível a descoberta de certas riquezas da nossa herança a quantos as ignoravam, além de que esta forma litúrgica vem suscitando numerosas vocações sacerdotais e religiosas por todo o mundo, prontas a pôr a sua vida ao serviço da evangelização.”

3) Tendo ido a Roma por ocasião da Peregrinação Populus Sommorum Pontificum, o Pe. Hamberg disse-nos que se dividia entre a paróquia de Turku (150 km a oeste de Helsínquia) e Helsínquia, onde tem a seu cargo as missas em sueco e, uma vez por mês, a missa em forma extraordinária. Mesmo sendo difícil oferecer aos fiéis todo o apoio pastoral que estes desejariam , por causa do escasso número de sacerdotes e das distâncias que é preciso percorrer, ainda assim, a assistir regularmente à Missa tradicional em Helsínquia estão sempre mais de cinquenta pessoas. Graças à ajuda de sacerdotes da Fraternidade de São Pedro, que aí se deslocam vindos da Polónia, a Missa pode ser celebrada todos os domingos. Ao núcleo duro dos fiéis, constituído por jovens adultos e por famílias, têm-se vindo a juntar pouco a pouco outras pessoas, muitas das quais vindas de muito longe, e que aí acorrem atraídas pela música e por uma liturgia mais orante do que aquela que, ordinariamente, têm a possibilidade de seguir.

4) No interior dos luteranos existe uma corrente que poderíamos qualificar de “igreja alta” e que se mostra atenta tanto à dignidade e à solenidade da liturgia como ao rigor doutrinal. Entre os luteranos suecos, de que derivam os finlandeses, tem havido nos últimos anos um fluxo constante de conversões ao catolicismo, inclusive por parte de pastores de renome (o caso mais recente é o de Ulf Ekman). Se por um lado é consabido que este fenómeno tem como causa a fuga para a frente do luteranismo em questões morais e políticas (desde 2009, Estocolmo tem uma mulher “bispo” que vive com outra mulher), por outro lado é também verdade que a revitalização da liturgia tradicional 
por parte da Igreja Católica – e de tudo o que aquela representa do ponto de vista da rectitude doutrinal e moral – pode bem estar a actuar como um íman. Neste sentido, a vocação do Pe. Hamberg surge à guisa de trunfo ao serviço de um “ecumenismo” autêntico.

(*) No prefácio que escreveu para uma obra espanhola sobre os princípios para a aplicação do motu proprio Summorum Pontificum.