Sinal dos tempos: o cardeal de Paris celebra em utroque usu numa mesma paróquia
Carta 59
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No domingo, 8 de Março 2015, o Cardeal Vingt-Trois, arcebispo de Paris, visitou a paróquia de Saint-Germain l'Auxerrois, onde quis celebrar ambas as missas, isto é, tanto a das9h45, em forma extraordinária, como a das 11h30, em forma ordinária. Tendo isto acontecido no dia seguinte ao do aniversário da entrada em vigor da missa em língua vernácula (7 de Março de 1965), esta visita do Cardeal Vingt-Trois assume um valor simbólico em prol da paz e da reconciliação, o que não pode deixar de nos alegrar.




I - UMA VISITA SERENA

Um arcebispo metropolitano que decide celebrar nas duas formas do rito romano num mesmo dia e na mesma paróquia, é algo que por si só é notícia de monta. Mais ainda tratando-se do arcebispo de Paris, e sabendo-se que esta visita, feita sob o signo da paz paroquial e litúrgica, tem lugar num momento em que alguns nostálgicos das agitações pós-conciliares dão mostras de querer fazer marcha atrás relativamente à reconciliação possibilitada pelos Papas João Paulo II e Bento XVI.

Segundo a opinião daqueles fiéis com quem falámos, a visita do cardeal desenrolou-se de modo simples e sereno. Havia fiéis que nem estavam ao corrente da vinda do Cardeal Vingt-Trois e que só no momento da homilia se aperceberam que a celebrar voltado para Deus era um prelado com solidéu vermelho: "Para nossa grande surpresa, vimos que era o Cardeal Vingt-Trois. Proferiu um sermão quaresmal muito santo, e depois, continuou a missa, que celebrou sem hesitações. Estávamos realmente encantados, e o mesmo se diga de todas as famílias à nossa volta", conta Anne-Marie, que tinha ido acompanhar o neto a um encontro de lobitos.

A Jean, um paroquiano meramente ocasional, chamou-lhe a atenção a presença de tantos escuteiros, mas o que sobretudo apreciou foi a beleza da celebração e o à-vontade do celebrante: "O Cardeal Vingt-Trois parecia estar muito habituado; os acólitos nem tinham de lhe indicar o que era preciso fazer, como acontece, às vezes, em missas celebradas por sacerdotes que raramente dizem a missa tradicional."

Henri, que é um paroquiano habitual, também fez questão de dar testemunho do excelente clima que reina em toda a paróquia: "Não é preciso lembrar aqui o que representa a paróquia de Saint Germain l’Auxerrois na história de França. É a paróquia do Palácio do Louvre, no coração de Paris. Pela minha parte, percebi como que um piscar de olhos à crise da Igreja nesta vinda do arcebispo de Paris, Mons. Vingt-Trois, para celebrar segundo o rito tradicional na nossa paróquia no dia 8 de Março. O dia 8 de Março marcou exactamente a passagem dos 50 anos desde a missa celebrada em Roma por Paulo VI em italiano, o ponto de partida do longo período de reforma litúrgica que eu considero desastrosa sob muitos pontos de vista. Devo dizer, porém, que Saint Germain l’Auxerrois vive de modo muito equilibrado o biformalismo, sob a batuta do nosso pároco. Em virtude da sua história e da sua localização, a dois passos do Louvre e do Museu d'Orsay, esta igreja acolhe, todos os domingos, muitas pessoas que estão de passagem, algumas das quais têm assim a oportunidade de descobrir por acaso, e, muitas vezes, com uma sensação de admiração, esta missa tradicional que se celebra às 9h45, cantada, com alegria e empenho, pelo nosso coro paroquial."


II - AS REFLEXÕES DA PAIX LITURGIQUE

1) O site da paróquia dá conta que por ocasião da visita do Cardeal Vingt-Trois "as assembleias foram muito mais numerosas do que é habitual, sinal da afeição incondicional que os fiéis têm por quem carrega o pesado fardo de 'governar, ensinar e santificar' os que o Senhor lhe confiou". Aí se publica também a bela homilia proferida pelo Cardeal Vingt-Trois na missa das 9h45, a que foi celebrada segundo o missal de São João XXIII. A homilia versou sobre o tema da confissão como ponto de passagem essencial no nosso caminho de conversão: "É um pouco como a história do nosso percurso quaresmal, que cada ano a liturgia cristã nos propõe, um caminho de conversão para nos preparar para renovarmos as promessas do baptismo durante a noite de Páscoa, um caminho de conversão para nos livrar dos nossos pecados, um caminho de conversão para encontrar de novo a unidade do combate: 'Todo reino dividido contra si mesmo será arruinado' (Lc 11,17). Não podemos estar, ao mesmo tempo, com Cristo e contra Cristo."

2) Muitas vezes houve em que tivemos ocasião de protestar, e por vezes vivamente, contra um certo tipo de aplicação em Paris do Motu Proprio Summorum Pontificum, quezilenta e pouco caridosa. Foi também para nós ponto de honra fazer notar a inflexão na atitude da administração diocesana de Paris, a partir, segundo cremos, da comparência do Cardeal Vingt-Trois durante a peregrinação a Chartres de 2010 (cf. a nossa carta 11), marcada por vários sinais que demonstravam uma escuta e uma atenção aos fiéis e seminaristas que se encontram inseridos no âmbito do Motu Proprio Summorum Pontificum. Esta visita pastoral a Saint-Germain l’Auxerrois, simples e discreta - o cardeal celebrou uma missa prelatícia assistido pelo secretário -, parece ser mais um exemplo disso mesmo. Não nos cabe senão alegrarmo-nos destes progressos e da promessa que trazem consigo, de um alargamento do espaço para a liturgia tradicional em Paris, para maior vantagem da evangelização, das vocações sacerdotais e religiosas, e do aprofundamento da fé e da piedade.

3) A 14 de Setembro de 2008, o Papa Bento XVI dizia o seguinte aos bispos franceses: "Ninguém é demais na Igreja. Nela, todos e cada um sem excepção devem poder sentir-se “em sua casa”, e nunca rejeitado. Deus, que ama todos os homens e não quer que nenhum se perca, confia-nos esta missão, fazendo de nós os Pastores das suas ovelhas. Não podemos deixar de Lhe dar graças pela honra e a confiança que nos reserva. Esforcemo-nos, pois, por ser sempre servidores da unidade!" O Cardeal Vingt-Trois também fez eco desse discurso, quando, a 28 de Maio de 2010, disse aos peregrinos de Chartres: "Considero-vos como membros da minha família (...) Uma família é constituída por membros que não se escolhem, mas que estão ligados de modo indefectível (...) Somos todos membros da mesma Igreja (...) As nossas são relações de fraternidade e de comunhão." Ignoramos se a coincidência dos 50 anos da missa em língua vernácula com a dupla celebração do cardeal de Paris foi voluntária ou não. Como quer que seja, temos para nós que é um sinal dos tempos: "Eis que o Inverno já passou, e a chuva parou e foi-se embora", diz o Cântico dos Cânticos (2, 11). Ainda não é a Primavera, mas talvez seja o seu prenúncio...