Carta 63 publicada a 21 agosto 2015

Cardeal Burke: A forma extraordinária, um tesouro para toda a Igreja

No Outono de 2015, será publicada a tradução francesa do livro do Cardeal Raymond Leo Burke Divine Love Made Flesh [La Sainte Eucharistie sacrement de l’amour]. Esta edição incluirá uma entrevista inédita com o cardeal patrono da Ordem de Malta, levada a cabo pelo Padre Claude Barthe, capelão da peregrinação a Roma do povo Summorum Pontificum. Para comemorar o oitavo aniversário da publicação do Motu Proprio Summorum Pontificum pelo Papa Bento XVI, deixamos aqui alguns excertos seleccionados dessa entrevista, com a gentil permissão do editor.



Fim de Junho passado: o Cardeal Burke festeja os seus 40 anos de sacerdócio rodeado de amigos, com uma missa (forma ordinária) celebrada na basílica de Santa Maria in Cosmedin, em Roma.


Padre Claude Barthe : Eminência, o dia 7 de Julho de 2015 assinala o aniversário do Motu Proprio Summorum Pontificum. Será exagero dizer que este texto é particularmente representativo do pontificado de Bento XVI?

Cardeal Raymond Leo Burke – Eu diria que em certo sentido, se trata, de facto, da expressão mais elevada do pensamento do Cardeal Ratzinger, que depois veio a ser o Papa Bento XVI. Ele mostra a sua compreensão do Concílio Vaticano II, já que, infelizmente, depois do segundo Concílio Ecuménico Vaticano, mas certamente não por causa dos ensinamentos do Concílio, verificaram-se numerosos abusos, nomeadamente no que diz respeito à celebração da sacra liturgia. Na Carta Apostólica Summorum Pontificum, vê-se como o Papa encontrou uma forma jurídica que estabelece um elo orgânico entre o novo e o antigo, entre a forma ordinária e a forma extraordinária.

CB: Este texto apareceu após 50 anos de crise litúrgica, a crise a que V. Eminência se referiu na intervenção que fez em Roma, durante o colóquio Summorum Pontificum, a 13 de Junho deste ano (“Um tesouro para a Igreja”), ao dizer que, desde 1970, “o cavalo desenfreou”. Não veio o Motu Próprio abrir um caminho para a resolução desta crise?

Card. Burke: Sem dúvida. Bento XVI viveu com grande dor toda a crise litúrgica, tal como o contou na sua autobiografia (“A Minha Vida”, Livros do Brasil, 2005). Na Carta dirigida aos bispos que acompanhava o Motu Proprio, ele dá conta desta que foi precisamente a sua experiência: “em muitos lugares – dizia o Papa Bento XVI – se celebrava não se atendo de maneira fiel às prescrições do novo Missal, antes consideravam-se como que autorizados ou até obrigados à criatividade, o que levou frequentemente a deformações da Liturgia no limite do suportável. Falo por experiência, porque também eu vivi aquele período com todas as suas expectativas e confusões.” E penso que, ao permitir redescobrir a forma da santa liturgia que tinha existido na Igreja romana ao longo de mil e quinhentos anos, o Papa Bento XVI veio dar a possibilidade para que os abusos seam corrigidos, e deu também um ponto de referência para que se chegue a um necessário enriquecimento da forma ordinária.

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CB: Em jeito de pistas para este enriquecimento, o Cardeal Cañizares, prefeito da Congregação para o Culto Divino, havia apresentado ao Papa Bento XVI algumas propostas para o uso “ad libitum” na forma ordinária das antigas orações do ofertório e para um enquadramento das concelebrações: qual a opinião de V. Eminência a este propósito?
 
Card. Burke: Não tenho conhecimento sobre se o Cardeal Cañizares fez essas propostas, mas estou plenamente de acordo com a ideia de recuperar certas orações como as que se conservaram no ofertório da forma extraordinária, pois são muito expressivas do grande mistério sacrificial que se celebra. Tudo na missa deve chamar a nossa atenção para a acção divina que se cumpre sobre o altar, e estas orações fazem-no de um modo particular. Num importante artigo concedido pelo Cardeal Sarah, prefeito do Culto Divino, ao “Osservatore Romano” de 12 de Junho passado, ele escrevia que seria desejável inserir o rito penitencial (com isso, quer-se referir às “orações aos pés do altar”) e o ofertório do “usus antiquior” como um anexo a uma futura edição do missal. Ainda acerca das orações aos pés do altar, o salmo que aí se utiliza, o salmo 42 da Vulgata (“E entrarei/irei até ao Altar de Deus; até ao Deus que alegra a minha mocidade”), era o mesmo que cantavam os sacerdotes antes de entrar no Templo de Jerusalém, voltados para o altar: é por isso uma belo modo de mostrar a unidade do culto “em espírito e verdade” (Jo 4, 23) da Nova Aliança e do culto da Antiga Aliança, o novo culto que completa e aperfeiçoa o antigo.

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CB: Ao dar o seu lugar à missa no seu estado tradicional – o estado em que é apresentada no missal de 1962 de João XXIII – o Papa Bento XVI quis então pôr à disposição de toda a Igreja um ponto de referência.

Card. Burke: Assim é, devemos ver a forma extraordinária como um tesouro conservado pela Igreja romana ao longo dos séculos. Trata-se de um rito que, na sua substância, é idêntico ao de Gregório Magno.

CB : … e é particularmente adequado para a acção da Igreja nos dias de hoje: V. Eminência insiste frequentemente na aplicação do adágio “lex orandi, lex credendi” à nova evangelização, ou reevangelização.

Card. Burke: A “lex orandi” está sempre ligada à “lex credendi”. Dependendo do modo em que os homens rezem, bem ou mal, assim também acreditarão, bem ou mal, e se comportarão, bem ou mal. A santa liturgia é, em absoluto, o primeiro acto da nova evangelização. Se não adorarmos a Deus em espírito e verdade, se não celebrarmos a liturgia com a maior fé possível, especialmente nessa acção divina que se desenrola ao longo da missa, então não poderemos ter a inspiração e a graça necessárias para participar na evangelização. Em suma, na santa liturgia está contida a forma da evangelização, na medida em que aquela é um encontro directo com o mistério da fé que nos cabe levar às almas que Deus traz ao nosso encontro.
Ela consegue, por ela mesma, conduzir ao conhecimento dos mistérios da fé. Se a santa liturgia for celebrada de uma maneira antropocêntrica, se ela mais não for do que uma simples actividade social, não terá qualquer impacto duradouro na vida espiritual. Uma das maneiras de conduzir os homens na direcção da fé consiste em restaurar a dignidade da liturgia. Celebrar uma missa com veneração é algo que sempre atraiu os homens para o mistério da redenção. É por isso que me parece que a celebração da missa na forma extraordinária pode ter um papel muito importante no âmbito da nova evangelização, porque ela acentua a transcendência da santa liturgia. Ela sublinha a realidade da união entre o Céu e a terra que a santa liturgia quer exprimir. A acção de Cristo por meio dos sinais do sacramento, por meio dos sacerdotes, instrumentos do próprio Cristo, torna-se muito evidente na forma extraordinária. Além do mais, ela ajuda‑nos a sermos mais respeitadores no modo de celebrar a forma ordinária.
Todos vemos a necessidade dessa evangelização no mundo de hoje, que vive como se Deus não existisse. É importante que se ligue esta nova evangelização à celebração o mais cuidada possível da liturgia. Em muitas pessoas ateias ou não
cristãs com quem me encontrei, pudever que, ao travarem conhecimento
com a missa na forma extraordinária, tinham a experiência de
estarem realmente na presença da acção de Deus.
 E em seguida, esta mesma experiência veio a permitir-lhes acolherem os ensinamentos da religião. Os homens devem conseguir compreender que o sacerdote age na pessoa de Cristo. Devem poder compreender que é o próprio Cristo que desce sobre o altar para renovar o sacrifício da Cruz. Devem poder compreender que têm de unir os seus corações àquele Seu Coração que foi trespassado para os purificar do pecado, e para fazer crescer neles o amor de Deus e o amor pelo próximo. Devemos pois catequizar os homens com as realidades profundas da missa, em particular por meio da forma extraordinária do rito romano.

CB: A propósito da relação entre doutrina e liturgia, nota-se com frequência que os seminaristas que são atraídos pela forma extraordinária, têm também o desejo de receber uma formação teológica verdadeiramente estruturada. Cumpre, aliás, dizer que, em França, a forma tradicional atrai muitos seminaristas.

Card. Burke: Mas, na Alemanha, também, e nos Estados Unidos, e em Itália. Havia a ideia de que os italianos não eram atraídos pela liturgia tradicional; é absolutamente falso.
Quanto aos seminaristas, quando era arcebispo de Saint Louis, assim que Bento XVI promulgou o Summorum Pontificum, pedi imediatamente que, no seminário, todos os seminaristas fossem instruídos sobre a forma extraordinária, sobre o seu rito, a sua espiritualidade, e que fosse celebrada no seminário uma vez por semana. Pedi também que os seminaristas que tivessem capacidade para aprender latim fossem formados para celebrar a forma extraordinária. Toda esta regulamentação foi muito bem recebida e, segundo penso, produziu bons frutos na arquidiocese.

CB: Porque esta missa agrada aos jovens.

Card. Burke: Assim é. O Papa Bento XVI dizia aos bispos que se poderia ter pensado que a procura da missa antiga tinha a ver com a geração mais velha, mas que se tinha tornado evidente que havia jovens a descobrirem esta forma litúrgica e que se sentiam atraídos por ela, vendo nela um modo de encontro com o mistério da eucaristia que condizia particularmente com eles. Eu mesmo, quando celebro a missa tradicional, posso observar que a ela vêm assistir numerosas belíssimas famílias jovens e com muitos filhos. Não quero dizer que estas famílias não possam ter problemas, mas uma coisa é clara, que elas se sentem assim mais fortes para os enfrentar. Sempre me impressionou o número de jovens que eram atraídos pela forma extraordinária da missa. São atraídos por ela porque ela é ricamente articulada e cativa a atenção em relação ao que está a acontecer e a ser feito no altar.

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