Schola Sainte Cécile: "Não cantamos senão Deus e para Deus, por meio da liturgia tradicional"
Carta 64
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Em exclusivo para o New Liturgical Movement e a Paix liturgique, Henri Adam de Villiers, director da “Schola Sainte Cécile”, um coro de fiéis da paróquia de Saint-Eugène de Paris - onde a liturgia tradicional é usada desde 1985 ao lado da liturgia moderna -, faz a apresentação do riquíssimo programa musical que a Schola cantará durante a próxima peregrinação internacional Summorum Pontificum a Roma, de 22 a 25 de Outubro de 2015.



1) Bom dia, Henri! Como já aconteceu em 2013, também este ano, a “Schola Sainte Cécile” regressa a Roma para acompanhar a peregrinação Summorum Pontificum. A que se deve esta fidelidade?

É ao mesmo tempo uma honra e uma grande alegria para nós este regresso a Roma, para acompanhar a peregrinação Summorum Pontificum. Uma honra, porque esta peregrinação internacional reúne numerosos fiéis vindos dos quatro cantos do mundo, que vêm fazer a sua acção de graças junto da sede de Pedro. Por meio desta iniciativa, a peregrinação, estes fiéis testemunham até que ponto a liturgia tradicional é um caminho de conversão e um alimento para a sua vida de cristãos. Assim, vemo-nos obrigados a dar o melhor de nós mesmos, para que os ofícios e as missas possam ser ainda mais belos e magníficos, mais "extraordinários" do que já o são ao longo de todo o ano.

É também uma grande alegria, pois poder cantar nos lugares de maior enlevo da nossa fé católica é algo que verdadeiramente nos tira o fôlego. Recordo ter ficado quase em lágrimas há dois anos na Basílica de São Pedro, de tão forte que foi a emoção de cantar a santa missa junto do túmulo de Pedro.


2) Seria possível apresentar-nos o programa que vai ser interpretado durante a peregrinação?

O primeiro plano vai para o cantochão gregoriano, que, naturalmente, será integralmente interpretado em cada uma das missas, como é nosso hábito.

Já o programa de polifonia, esse será original. É nossa intenção tirar vantagem das muitas tribunas existentes nas igrejas romanas para prover as obras de vários coros (como fizemos há dois anos), seguindo a antiga técnica dita dos "cori spezzati", dos "coros separados": os coristas são divididos e distribuidos por diversas tribunas, respondendo depois uns aos outros - por vezes, de modo muito dinâmico, gerando efeitos acústicos fascinantes. Esta prática dos "cori spezzati" teve uma fase muito florescente em Roma, durante o Renascimento, no final do século XVIII.

Assim, no dia 22 de Outubro, na Igreja da Trinità dei Pellegrini, as vésperas e a bênção do Santíssimo Sacramento serão cantados a três coros.

Mas será sobretudo durante a missa pontifical de sexta-feira, 23 de Outubro, que, aproveitando da acústica excepcional da igreja de Santa Maria in Campitelli e das suas numerosas tribunas, nos propomos fazer uso deste repertório a vários coros. Será cantada a Missa para 4 coros (H.4) de Marc-Antoine Charpentier, uma das principais obras deste compositor, mas raramente interpretada em virtude da dificuldade de juntar 16 vozes reais mais instrumentos! Há indícios que levam a crer que Charpentier terá composto esta missa durante a sua estadia em Roma na sua juventude, para os "marinheiros romanos" (!) É inegável que foi na Cidade Eterna que ele descobriu o seu repertório policoral (os seus manuscritos incluem uma cópia de uma outra missa a 4 coros de um compositor romano, Francesco Beretta, que foi mestre-de-capela no Vaticano e que Charpentier poderá ter conhecido durante os seus anos de formação em Roma).

Para acompanhar esta missa a 4 coros de Charpentier, apresentaremos 3 outros motetos a dois coros:
> Beati estis, em torno do texto da 8ª bem-aventurança, por Peter Philips, um sacerdote inglês exilado em Roma no século XVII por fidelidade à fé católica (foi mestre-de-capela do Colégio Inglês em Roma);
> Vox Domini, de Eustache du Caurroy, mestre-de-capela de Henrique IV, ardente propagador das polifonias a coros múltiplos em França;
> Omnes gentes plaudite manibus, de Guillaume Bouzignac (tudo leva a crer que seja esta a primeira vez desde o século XVII que se volta a executar esta obra a oito vozes).
A acústica de São Pedro, em Roma, onde teremos a alegria de cantar a missa da festa de São Rafael Arcanjo, no dia 24 de Outubro, já é certamente mais difícil. Ainda assim, apresentaremos aí “Angeli Archangeli”, um grande moteto a dois coros de Jean Veillot, mestre-de-capela de Luís XIV durante a menoridade deste, e o magnífico “Pange língua” de Miche-Richard de Lalandde, outro mestre da capela real de Luís XIV.
Este ano, seremos acompanhados por duas sacabuxas, instrumento do Renascimento e do Barroco que é um antepassado do trombone.


3) A Schola é um coro de fiéis cujo desempenho, muito frequentemente, em nada fica a dever àquele dos coros profissionais: qual o segredo da vossa harmonia?

Ora essa, não há nisso nada de verdadeiramente misterioso: não cantamos senão Deus e para Deus, por meio da liturgia tradicional. Ora, esta é uma liturgia exigente: não se pode fazer o que quer que seja, e a subjectividade pessoal deve passar para um segundo plano, já que se tem de seguir antes de mais o caminho trilhado pela tradição multissecular da música sagrada. A liturgia tradicional é exigente, mas, por isso mesmo, ela torna-se uma escola de excelência, que nos puxa para cima e que nos faz dar o melhor de nós mesmo. É por isso que esta liturgia gerou ao longo da História tantas maravilhas artísticas, no domínio da música, mas também no âmbito das outras artes, e, em particular, na arquitectura, maravilhas de que Roma foi sempre ficando especialmente dotada.
Creio que os nossos coristas – que não são mais do que simples paroquianos – são muito sensíveis a este aspecto: a generosidade do seu investimento pessoal é uma resposta entusiasta que quer estar à altura da beleza inerente à liturgia tradicional. Deus é o Bem Supremo e o Belo Supremo, e a liturgia tradicional é um antegozo da Sua glória, uma epifania, o Céu sobre a terra! Assim sendo, não se compadece com a mediocridade!

O meu trabalho à frente da “Schola Sainte Cécile” consistiu antes de mais em pôr-me a mim mesmo na senda da escola da grande tradição da música sacra do Ocidente, que, aliás, não pode ser compreendida em toda a sua profundidade se não se tiver um bom conhecimento das tradições litúrgicas e musicais do Oriente cristão. Cabe-nos a alegria de recolocar as obras do grande repertório ocidental da música sacra no próprio cenário em que foram criadas, já que, hoje em dia, infelizmente, já quase se não as ouve senão em concerto. Ordenadas assim para a sua finalidade própria, que é a de dar glória a Deus, estas obras adquirem plenamente o seu sentido, ao passo que, quando ouvidas num quadro que não seja o da liturgia, elas acabam por ficar amputadas da sua real dimensão. Ressuscitamos obras magníficas, mas esquecidas, que dormem sobre as estantes das nossas bibliotecas públicas, e montamos frequentemente projectos litúrgicos originais, como seja o de irmos cantar o rito moçárabe a Toledo ou o rito ambrosiano a Milão. Tudo isto não pode deixar de ser fonte de motivação para os nossos coristas!

Creio, enfim, que o facto de nos dedicarmos a praticar a música em comum permite que tecamos laços profundos. E se se canta para Nosso Senhor, isso adiciona a essa prática comum uma dimensão suplementar, de comunhão espiritual: entre nós, compartilhamos muito mais do que as notas musicais!

> Veja aqui o programa oficial da Quarta Peregrinação a Roma do Povo Summorum Pontificum.
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