França: um sinal de abertura?
Carta 6
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A recente peregrinação a Chartres, organizada pela Associação Nossa Senhora da Cristandade, foi marcada pela visita do Dom André Vingt-Trois, Cardeal Arcebispo de Paris e Presidente da Conferência Episcopal de França, que aí deu também a Bênção do Santíssimo Sacramento, domingo, dia 23 de Maio.

Esta peregrinação dos católicos tradicionalistas que estão em plena comunhão com a Igreja faz-se há já 28 anos, e é a primeira vez que nela participa um Presidente da Conferência Episcopal francesa. Trata-se, portanto, de um acontecimento excepcional e merece que o tentemos decifrar.


I – Um pouco de história

Foi em 1982 que uma equipa de leigos franceses, reunidos em torno do Centro Charlier, veio relançar o antigo costume de fazer uma peregrinação a pé, de Paris até Chartres. Depois de ter sido baptizada “Peregrinação da Cristandade”, a direcção espiritual da marcha (100 km em 3 dias) foi confiada ao Padre François Pozzetto (1). Fundada e organizada por leigos, esta peregrinação declarou imediatamente a sua vontade missionária e a sua preocupação em contribuir para a reconciliação dos católicos com a tradição da Igreja, especialmente a tradição litúrgica.

O sucesso foi rápido. Milhares de peregrinos apressam-se a percorrer o caminho para Chartres. Exprimindo sem ambiguidades a sua ligação à liturgia romana tradicional (2), à época, porém, a peregrinação foi desprezada pela hierarquia católica francesa, e as portas das catedrais de Paris e de Chartres mantiveram-se-lhe obstinadamente fechadas, à excepção, para esta última, do ano de 1985. Depois, a consagração de quatro bispos em 1988 por Mons. Lefebvre, superior da FSSSPX, veio marcar a cisão da peregrinação, mas nem por isso a enfraqueceu. Aliás, bem pelo contrário, seríamos até tentados a dizer!

> Por um lado, porque o cúmulo do número de caminhantes das duas “novas” peregrinações é superior àquele do cortejo único precedente (mais de 15.000 peregrinos em média contra 10.000 em 1988, ano em que a peregrinação teve a afluência mais elevada enquanto unificada),

> Por outro lado, porque, pouco a pouco, os bispos começaram a tratar os peregrinos da peregrinação que havia declarado a fidelidade a Roma, como católicos “normais”, ou quase, abrindo os santuários aos fiéis, assistindo às cerimónias e, por vezes, aceitando celebrá-las.

Convém dizer que a peregrinação Paris-Chartres (depois de 1990, a FSSPX faz a sua marcha no sentido Chartres-Paris) é a montra incontornável da ligação à liturgia tradicional em França, notabilizando-se nomeadamente pela sua juventude, dinamismo, impecável organização e pela sua alegre e serena ligação à liturgia tradicional da Igreja. Não é possível indicar ao certo o número de jovens que, tendo sido educados com a reforma litúrgica, vieram a descobrir com admiração o esplendor do rito tradicional, precisamente durante as peregrinações. Como também não é possível indicar o número de conversões que esta peregrinação já suscitou. E finalmente, não é possível também indicar o número de vocações sacerdotais e religiosas que nasceram a caminho de Chartres.

Só há uma certeza: a peregrinação de Chartres, não apenas desempenhou um papel capital na preservação e desenvolvimento da liturgia tradicional em França, num momento em que, de facto, estava ameaçada pelas autoridades eclesiásticas, mas permitiu também que se levasse a que os prelados de boa vontade tomassem consciência de que os 34% dos católicos franceses (sondagem CSA 2008, a pedido de Paix Liturgique) ligados ao que agora se chama a forma extraordinária do rito romano, eram também eles católicos de corpo inteiro.

No entanto, até ao presente ano, jamais fora alvo de uma atenção directa por parte do Presidente da Conferência Episcopal de França.


II – Uma viragem na atitude dos prelados franceses?

Sendo Cardeal Arcebispo de Paris e Presidente da Conferência Episcopal francesa desde 2007, Mons. André Vingt-Trois não é conhecido pelo seu amor pela liturgia tradicional, nem pela sua simpatia pelos fiéis das comunidades Ecclesia Dei. Herdeiro de Mons. Lustiger, o Cardeal Vingt-Trois é um conservador conciliar que, até hoje, quase nada fez para favorecer a aplicação do Motu Proprio “Summorum Pontificum» em Paris (desde 2007, diante de 35 pedidos formalizados em cem paróquias, só foi concedida uma única Missa paroquial semanal). Mas ele é também um prelado que se encontra sob pressão, estando a sua diocese — como quase todas as dioceses de França — num triste estado ao nível das vocações sacerdotais e da assistência à Missa por parte dos fiéis (numa sondagem realizada pela Harris Interactiva para Paix Liturgique, em Fevereiro de 2010, apenas 9,9 % dos católicos parisienses declararam ir à Missa todos os domingos!), como também a nível financeiro.

Agora que os bispos franceses são esperados em Roma para a sua visita ad limina, que terá lugar nos próximos meses, o Cardeal Vingt-Trois sabe bem como é pouco satisfatório o balanço que lhe caberá defender — o seu, mas também aquele dos seus confrades, enquanto presidente da Conferência Episcopal. Ao ter aparecido na peregrinação de Chartres, cuja fama internacional, hoje em dia, já está firmemente estabelecida e que é apreciada por vários membros da Cúria Romana, ele veio realizar também um gesto eminentemente mediático.

Aliás, pode haver quem veja nesta sua deslocação aos caminhos de Chartres apenas um gesto apenas um gesto táctico destinado, ao mesmo tempo, a acalmar os pedidos relativos à forma extraordinária que se vêem nas paróquias parisienses e a descansar o Vaticano, em especial a Comissão Ecclesia Dei em cujos escritórios ele tem sido muito visto nos últimos meses, acerca da sua boa disposição quanto à aplicação do Motu Proprio.

Não é essa porém a nossa interpretação desta sua visita histórica à peregrinação. A simplicidade com que Mons. Vingt-Trois se comportou durante todo o tempo em que esteve no meio dos peregrinos e a alocução que fez por essa ocasião levam-nos a saudar o pragmatismo do Cardeal e a agradecer-lhe por este seu belo gesto. Contrastando com a dureza do julgamento que exprimiu no seu último livro, acerca dos fiéis ligados à tradição da Igreja (3), ele veio declarar na rádio o seguinte: «na medida em que respeitem as leis e as regras do funcionamento da Igreja, eles fazem parte da Igreja e são membros normais da nossa Igreja.» E aos próprios peregrinos, ele declarou tão simplesmente a pertença à mesma família: «A Igreja é nossa mãe. É porque a Igreja é nossa mãe e porque estou associado ao ministério apostólico de Cristo no colégio dos bispos, sob a presidência e a orientação do Santo Padre, Bento XVI, que vos considero membros da minha família.»

Claro está que agora do que se trata é da concretização das promessas desta visita a Chartres nas paróquias parisienses, a começar pela celebração da forma extraordinária aos domingos, sobretudo na realidade dominical deste país ao qual João Paulo II havia lembrado a sua missão de «filha primogénita da Igreja». Rezemos para que o gesto de Chartres seja seguido de resultados; a Igreja de todo o mundo, e não apenas a de França, tem grande necessidade disso mesmo.


(1) Hoje membro da Fraternidade de São Pedro, o Padre Pozzetto era nessa altura membro da Fraternidade São Pio X.

(2) O ponto 4 da carta da Associação de Nossa Senhora da Cristandade estipula o seguinte: «Numa total fidelidade à Santa Sé, os organizadores da peregrinação apelam ao ensinamento constante da Igreja. Eles traduzem a sua ligação à Tradição sob todas as formas — em especial, aquelas doutrinais, litúrgicas e sacramentais — através da exclusiva utilização do rito tridentino, tal como foi codificado nos livros litúrgicos de 1962, e novamente confirmado pelo Motu Proprio “Summorum Pontificu”, de 7 de Julho de 2007, como sendo a forma extraordinária, jamais abrogada, da liturgia do Santo Sacrifício da Missa. Pedem aos padres que os acompanham que respeitem esta escolha no ministério que exercem durante peregrinação e ao longo das diferentes actividades preparatórias.»

(3) Neste livro (“Uma Missão de Liberdade”, Ed. Denoël), Mons. Vingt-Trois sustenta posições pouco caridosas em face dos fiéis ligados à tradição litúrgica e doutrinal da Igreja: identificando-os pura e simplesmente como “integristas”, mostra a suspeita de que estariam «numa “contra-Igreja” que pretende julgar o Papa e os bispos».