MONSENHOR BUX: QUE CHEGUE A PAZ LITÚRGICA!
Carta 12
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Em fins de Novembro, o terceiro encontro Réunicatho, uma associação de fiéis ligados à liturgia tradicional da região de Paris, teve por convidado de honra Monsenhor Nicola Bux. Promotor da reforma da reforma desejada pelo Santo Padre, professor de liturgia oriental na Faculdade de Teologia da Puglia, no Sul de Itália, consultor da Congregação para a Doutrina da Fé, do Gabinete para as Celebrações Litúrgicas do Santo Padre e da Congregação para o Culto Divino, Monsenhor Bux é ainda o autor de numerosas obras. O seu último livro, acabado de sair em Itália, ostenta o título provocador de “Como ir à Missa sem perder a fé” (edições Piemme) e tem a ambição de lembrar aos católicos praticantes, mas também aos sacerdotes, o que é a Missa, apoiando-se para isso nas suas origens históricas e sublinhando o seu significado espiritual.

Para encerrar a sua intervenção no encontro de Versalhes, Mons. Bux escolheu o tema da paz litúrgica. Porque as suas palavras, dirigidas tanto aos fiéis como aos párocos, tiveram um grande eco em França e porque também são válidas para toda a Igreja, decidimos apresentá-las este mês aos nossos leitores em exclusivo.


I – O DOCUMENTO: a conclusão da intervenção de Mons. Bux no colóquio de Réunicatho, de 21 de Novembro de 2010, em Versalhes

Após a reforma litúrgica e a aplicação do concílio, foram numerosas as vozes que se levantaram contra estas e outras medidas. Tudo isso levou a um endurecimento das diferentes posições e à deterioração do clima no interior e no exterior da Igreja.

Alguns houve que, sem embargo de denunciarem aquilo que não partilhavam nas reformas, continuaram a obedecer ao Papa como filhos devotos de Roma; seja um nome apenas por entre tantos outros: o nome do Cardeal Alfredo Ottavani.

Outros, pela conduta que adoptaram, efectivamente e na prática afastaram-se de Roma.

Com o Motu Proprio Summorum Pontificum, o Santo Padre, Bento XVI, veio também tentar curar esta terrível fractura e promover a paz litúrgica.

Disse “também”, porque o Motu Proprio, de acordo com o Santo Padre, não deve ter apenas esta finalidade. Com efeito, a liturgia está no centro da empresa de restauração e de reconciliação querida pelo Santo Padre. Na sua recente mensagem à conferência episcopal italiana, o Papa explica que: «O fiel autêntico, em todos os tempos, experimenta na liturgia a presença, o primado e a obra de Deus. Ela é «veritatis splendor» (Sacramentum caritatis, 35), acontecimento nupcial, antegozo da cidade nova e definitiva, e participação na mesma; é um vínculo de criação e de redenção, céu aberto sobre a terra dos homens, passagem do mundo para Deus; é Páscoa, na Cruz e na Ressurreição de Jesus Cristo; é a alma da vida cristã, chamada ao seguimento, à reconciliação que move a caridade fraterna». Para o Papa, só reencontrando-se de novo em torno do altar é que os sacerdotes e os fiéis farão de novo resplandecer a palavra de Cristo num país como a França em que o cristianismo está em declínio. E, para este espírito, a liturgia tradicional é essencial porque repõe o culto divino no primeiro plano das preocupações dos católicos.

O Motu Proprio Summorum Pintificum foi querido pelo Papa como um instrumento destinado a devolver à liturgia a sua primazia. De facto, a forma extraordinária é proposta como uma pedagogia da forma ordinária:

- para os sacerdotes que desejam dar nova vida à sua ars celebrandi,

- para os fiéis que querem compreender ou encontrar de novo o sentido da liturgia eucarística.

Se é verdade que no Motu Proprio, o Santo Padre menciona os fiéis ligados à liturgia tradicional, é também verdade que, na “Carta aos Bispos”, toma o cuidado de referir que a forma extraordinária diz respeito a todo o povo de Deus: Faz-nos bem a todos conservar as riquezas que foram crescendo na fé e na oração da Igreja, dando-lhes o justo lugar». Entre outras coisas, a forma extraordinária é uma ocasião, para os sacerdotes, de se reapropriarem do uso da língua latina, e para os fiéis, de se impregnarem do espírito da liturgia, culto desejado por Deus para a Sua glória e para a nossa salvação. Mas devo também sublinhar que não podemos em princípio recusar o Novus Ordo, e isto para respeitarmos o princípio da comunhão eclesial. E claro está que isso se aplica tanto aos leigos como aos sacerdotes. Com efeito, não podemos fazer do rito um absoluto, porque os rituais são meios específicos de estruturação da unidade da Igreja. É por isso que, e em particular por parte de quantos amam a Tradição católica e romana, aquilo que esperamos é um exemplo de obediência ao Santo Padre.

Todos nós devemos imitar o Santo Padre, que publicou este acto gratuito de amor. Como ele lembrou aos bispos aquando da sua visita a Paris: «Ninguém está a mais na Igreja».

Lembrem-se sempre de usar de caridade para com os vossos irmãos, especialmente para com aqueles que têm ideias diferentes das vossas e que, por vezes, podem estar errados. De facto, a um convite tão aberto do Sumo Pontífice, não podemos responder com um encerramento.

Por fim, queria dizer-vos que, em Itália, verificamos que a aplicação do Motu Proprio fica-se a dever frequentemente à própria iniciativa dos párocos. E, geralmente, os fiéis seguem sem dificuldades, o que é prova da existência de uma forte procura silenciosa que, muitas vezes, hesita em manifestar-se por sua própria iniciativa.

Finalmente, gostaria de insuflar um tanto de coragem aos párocos.

Ao fazerem seu o Motu Proprio, eles podem participar concreta e utilmente na obra de «reconciliação interna da Igreja» desejada pelo Santo Padre, tal como se vê na sua “Carta aos Bispos” que acompanha o Summorum Pontificum. As tensões que possam existir entre fiéis que solicitam a Missa segundo a forma extraordinária, párocos hesitantes e bispos hostis, seriam bem menores se os párocos ousassem fazer uso da liberdade que lhes é dada pelo Papa. Claro está que não se trata de impor o Missal de João XXIII à comunidade paroquial de um dia para o outro, mas sim de aproveitar para pôr em marcha uma catequese específica e progressiva.

Espero vir a ver muitos párocos a celebrarem o Vetus e o Novus Ordo, pois, como nos ensina o Oriente, a existência de várias formas do mesmo Rito é um grande tesouro que devemos aprender a descobrir, a preservar e a cultivar.


II – AS REFLEXÕES DE PAIX LITURGIQUE

1) Contrariamente ao que, por vezes, ainda se entende, o Motu Proprio de 2007 sobre a liturgia tradicional não é um gesto destinado aos “tradis”. Se fosse esse o caso, uma simples mexida no Motu Proprio de 1988 teria sido amplamente suficiente. De facto, como explica Monsenhor Bux, «a liturgia tradicional é essencial porque repõe o culto divino no primeiro plano das preocupações dos católicos». E é precisamente uma das constantes do Cardeal Ratzinger, que entretanto viria a tornar-se Bento XVI, a de ver a liturgia como «centro da empresa de restauração e de reconciliação» de que a Igreja está precisada. A liturgia é central porque todos os olhares dos fiéis convergem para ela ao domingo em todas as paróquias do mundo, mas também porque é dela que irradiam, com mais ou menos força, as verdades da Fé.

2) De facto, Monsenhor Bux vem precisar a função do Motu Proprio Summorum Pontificum ao descrever a forma extraordinária «como uma pedagogia da forma ordinária». Para quem? «Para os sacerdotes que desejam dar nova vida à sua ars celebrandi» e «para os fiéis que querem compreender ou encontrar de novo o sentido da liturgia eucarística». Encontramo-nos aqui no coração do mútuo enriquecimento das duas formas do rito, de que o Papa fazia votos na sua “Carta aos bispos” de 7 de Julho de 2007: «na celebração da Missa segundo o Missal de Paulo VI, poder-se-á manifestar, de maneira mais intensa do que frequentemente tem acontecido até agora, aquela sacralidade que atrai muitos para o uso antigo», foi o que ele efectivamente escreveu. Naturalmente, nesta perspectiva, o quadro ordinário da celebração da forma extraordinária do rito romano (o seu direito comum, em suma) não pode deixar de ser a paróquia territorial (ainda que a paróquia pessoal, prevista pelo texto do Motu proprio, também possa vir a ser adoptada numa ou noutra situação particular).

3) Não calaremos também o apelo que Monsenhor Bux lança aos católicos ligados à forma extraordinária, convidando-nos a «não fazer do rito um absoluto» e a não «recusar o Novus Ordo» por princípio. Lembremos a este propósito que a maioria daqueles que solicitam a forma extraordinária são fiéis que, até então, assistiam à Missa moderna. As sondagens internacionais encomendadas por Paix Liturgique indicam que cerca de 1/3 dos católicos praticantes — que hoje assistem todos os domingos à Missa celebrada de acordo com a forma ordinária — assistiria de bom grado à forma extraordinária do rito romano se ela fosse celebrado na sua própria paróquia; trata-se aqui, sem dúvida, de fiéis “silenciosos”, que regularmente praticam segundo a forma ordinária à falta de outra opção na sua paróquia.