Também na Suíça, os silenciosos da Igreja não fazem barulho …
Carta 20
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Uma nova sondagem internacional levada a cabo pela Paix Liturgique vem pôr a descoberto o profundo desequilíbrio da igreja suíça. 61% dos católicos suíços não conhecem de todo o motu proprio Summorum Pontificum …

Durante o mês de Março, o instituo Démoscope dirigiu por conta da Paix Liturgique um inquérito telefónico junto de 2009 habitantes da Suíça (apenas na Suíça alemã e italiana), dos quais 722 (36%) se declararam católicos. A nossa carta francesa apresentou os seus resultados no seu número 280. Sobretudo, eles mostram que também na Suíça existe uma grande fracção de católicos que estão prontos a aderir ao renovamento desejado pelo Santo Padre, inclusive àquele litúrgico, ainda que lhes seja difícil fazerem-se ouvir no seio das instituições eclesiásticas, submetidas que estão ao diktat progressista.

Antes de, numa segunda parte, passarmos a considerar a atracção exercida pela forma extraordinária na Suíça, a primeira parte do nosso inquérito trata precisamente do caos inacreditável que reina hoje na igreja helvética.


I – UM CATOLICISMO EM CRISE

A Suíça conta seis dioceses e duas abadias territoriais cujos prelados fazem parte da “Conferenza dei Vescovi Svizzeri” (CVS). Historicamente marcado pelo contacto com as comunidades protestantes e pela sua propensão ecuménica, o catolicismo suíço também é conhecido pelas suas ligações especiais com o Papado (basta pensar nos guardas suíços, que são fornecidos pelos cantões católicos), pela sua relativa sujeição às instituições políticas cantonais e federais, devido ao seu sistema dualista (1), e, mais recentemente, pelo facto de aí se terem cristalizado não poucas tensões pós-conciliares.

Na Suíça como na Alemanha ou em França, o catolicismo é hoje fortemente marcado pela secularização. A taxa dos praticantes situa-se abaixo dos 10% e o número das vocações é aí dramaticamente magro. Se hoje o ecumenismo é algo que merece menor atenção, ultrapassado pela questão do “diálogo com o islão”, e a ligação a Roma, menos viva que outrora, as tensões pós-conciliares, essas continuam a ser uma nota característica desta igreja local.

Em Lugano, o bispo actual pronunciou-se numa carta pastoral de 2006 a favor do acesso à eucaristia por parte dos divorciados casados de novo civilmente e, ao mesmo tempo, multiplica os obstáculos à aplicação do motu proprio Summorum Pontificum. Em Chur, diocese que abarca sete cantões, na maioria alemães, entre os quais o de Zurique, a sua hierarquia eclesiástica e leiga tenta conseguir a cabeça do bispo actual, Mgr. Huonder, nomeado em 2007 por Bento XVI e considerado «demasiado conservador». Em 1997, essa mesma hierarquia, apoiada pelo poder político, tinha feito cair o bispo de então, Mgr. Haas, que Roma acabaria por instalar no Liechstenstein. Do lado francófono, até hoje Roma ainda não nomeou o sucessor de Mgr. Genoud, bispo de Lausana, Genebra e Friburgo, que morreu prematuramente no passado mês de Setembro. De acordo com a imprensa suíça, as primeiras duas ternas (os três nomes de potenciais bispos), propostas pelo núncio à Congregação dos Bispos foram recusadas, o que é uma prova da dificuldade de prover a esta diocese em crise. E por fim, o catolicismo suíço é também o de Écône. De facto, é difícil falar do catolicismo na Suíça sem mencionar que é aí que a Fraternidade de São Pio X tem a sua sede e que foi aí que nasceu a Fraternidade de São Pedro…


II – A FORMA EXTRAORDINÁRIA NA SUÍÇA

No quadro diocesano, existem hoje na Suíça cerca de quarenta de lugares abertos à forma extraordinária. 22 têm uma missa dominical todas as semanas, na maioria num horário familiar (entre as 9 horas e o meio-dia). 4, uma missa dominical não semanal, mas regular. Os demais, uma quinzena, não têm senão a missa à semana, todas as semanas ou não. Quase a metade destes lugares são assistidos pela Fraternidade de São Pedro, tão presente na parte alemã da Suíça como naquela italiana.

Na diocese de Chur, existem 13 lugares com missa em forma extraordinária, dos quais 5 oferecem a missa dominical todas as semanas (2 no cantão de Zurique, 2 no de Schwyz e 1 no de Grisons).

No que respeita à Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, podemos contar 31 lugares de missa, dos quais 24 com missa dominical todas as semanas, e 2 destes situam-se na diocese de Chur, o que eleva para 15 o número dos lugares de missa tradicional nessa diocese tão atormentada. Não é mau de todo, mas não chega para ter voz em capítulo no concerto diocesano…

«Não é mau de todo, mas não chega», é um pouco esse o comentário que nos vem em mente para resumirmos a situação da forma extraordinária na Suíça.

Há uma explicação para isso e ela prende-se à atitude da Conferência dos bispos suíços (CBS). Na Suíça como alhures, os bispos empenharam-se em limitar o alcance do texto pontifício editando “directivas” para a sua aplicação. A 277ª assembleia ordinária da CBS, que teve lugar de 10 a 12 de Setembro de 2007, nas vésperas da entrada em vigor do Motu Proprio (14 de Setembro de 2007), estipulou nomeadamente que, para que um sacerdote possa celebrar segundo a forma extraordinária do rito, seria até necessária a autorização do bispo! Nem mais nem menos… muito embora o artigo 5º do Summorum Pontificum, completado pelo artigo 7º, estipule que o que é realmente necessário é a autorização do pároco, e que o bispo não intervirá senão num segundo momento, em caso de recusa do pároco; aliás, o texto do Motu Proprio chega mesmo a convidar «vivamente o bispo a satisfazer o... desejo» de quem solicita a missa !

Com essas directivas, pouco conhecidas dos fiéis suíços, mas perfeitamente compreendidas pelas engrenagens diocesanas, tanto aquelas religiosas como as não religiosas, os bispos — podemos disso exonerar Mons. Huonder que então fazia a sua primeira aparição na CBS — desviaram resolutamente o espírito do texto pontifício para o fazer retornar às disposições do motu proprio Ecclesia Dei de 1988. Não espanta pois que 61% dos católicos suíços tenham declarado desconhecer o motu proprio Summorum Pontificum…

E no entanto, estes católicos silenciosos não deixam de pensar nisso. A nossa sondagem permite-lhes agora que comecem a dizê-lo. Ela vem mostrar uma vez mais que os bispos arqui-conciliares perceberam tudo mal.


III – RESULTADOS DA SONDAGEM DÉMOSCOPE

Os resultados que se seguem dizem respeito a 722 habitantes suíços que se declararam católicos de entre os 2009 entrevistados telefonicamente (método CATI) pelo instituto Démoscope, em Março de 2011. A fim de se respeitar o peso demográfico relativo dos suíços alemães e italianos, o Démoscope forneceu-nos os dados com correcções e arredondamentos.

Questão 1: Vai à missa?
Todos os domingos: 8%
Todos os meses: 12%
Nos dias de festas de preceito: 19%
Em certas ocasiões (casamentos, etc.): 41%
Nunca: 19%
NSP (não se pronunciam): 1%

Os resultados das questões 2, 3 e 4, apresentados de seguida, dizem respeito a católicos que na questão 1 se identificaram como praticantes, pelo menos mensais. É possível consultar os resultados da sondagem suíça na integralidade a partir do site da Paix Liturgique.

Questão 2: Em Julho de 2007, O Papa Bento XVI lembrou que a Missa podia ser celebrada tanto segundo a forma moderna, dita “ordinária” ou “de Paulo VI” — isto é, em vernáculo, com o padre de frente para os fiéis e a comunhão a ser recebida em pé — como segundo a forma tradicional, dita “extraordinária” ou de “João XXIII” — isto é, em latim, com o canto gregoriano, o padre virado para o altar e a comunhão a ser recebida de joelhos. Sabia disto?
Sim: 56%
Não: 42%
NSP: 2%

Questão 3: Acharia normal ou anormal que as duas formas do rito romano fossem celebradas regularmente na sua paróquia?
Normal: 41%
Anormal: 50%
NSP: 9%

Questão 4: Se na sua paróquia fosse celebrada uma missa em latim e com o canto gregoriano, segundo a forma extraordinária, sem que se eliminasse a outra, em francês, em forma dita “ordinária”, assistiria?
Todos os domingos: 16%
Todos os meses: 19%
Nos dias de festa de preceito: 10%
Em certas ocasiões (casamentos, etc.): 21%
Nunca: 32%
NSP (não se pronunciam): 2%


IV – OS COMENTÁRIOS DA PAIX LITURGIQUE

A) Este novo estudo, levado a cabo de acordo com as normas científicas e profissionais usuais, vem confirmar uma vez mais as sondagens precedentes: apesar de a polarização da igreja suíça ser muito forte e do barulho que têm feito os “católicos críticos”, uma parte substancial dos fiéis (35%) assistiria regularmente à forma extraordinária do rito romano — entenda-se, pelo menos uma vez por mês — se ela fosse celebrada na sua paróquia, isto é, para dizer as coisas de um modo simples, se o Motu Proprio fosse aplicado…

B) 42% dos católicos praticantes suíços não ouviram falar do Motu Proprio de Bento XVI… quando já lá vão quase quatro anos desde a sua publicação (percentagem que trepa para 61% no universo dos interrogados que se declararam católicos). Este número, comparável ao português, é a consequência da lei do silêncio que na Suíça reina à volta da liturgia tradicional. Este silêncio só por si diz muito sobre a falta de zelo do episcopado suíço no que toca a dar a conhecer o Motu Proprio de Bento XVI junto dos fiéis.

C) Esta sondagem demonstra uma vez mais que tratar a questão da aplicação do Motu Proprio fazendo-a depender da apresentação de um pedido expresso equivale a um desconhecimento grave das aspirações dos fiéis, o mesmo é dizer, um procedimento desleal que não tem outro fim que não seja o de impedir a aplicação do texto de Bento XVI. Diante da atitude da Conferência dos Bispos Suíços, que, em Setembro de 2007, submeteu a possibilidade de um sacerdote celebrar a forma extraordinária do rito romano à autorização do bispo, e diante do número ridiculamente baixo de fiéis que mostram ter conhecimento do Motu Proprio, permitam-nos apontar o dedo à responsabilidade do episcopado por este “sepultar” do texto pontifício

D) A nossa próxima sondagem internacional já está em curso e dirigir-se-á à Espanha. Se desejarem participar no seu financiamento e permitir-nos assim prosseguir com o nosso trabalho de informação, poderão fazê-lo com uma transferência bancária para:
Paix Liturgique, 1 allée du Bois Gougenot, 78290 Croissy-sur-Seine, France
IBAN : FR76 3000 3021 9700 0500 0158 593
BIC/SWIFT : SOGEFRP
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(1) A originalidade suíça reside no facto de os fiéis e os sacerdotes “de base” disporem da possibilidade, garantida pelas instituições federais, de constituírem associações que dirigem as paróquias, recebendo o imposto eclesiástico. Este sistema dualista, em vigor nomeadamente nos cantões alemães, dá aos leigos empenhados um grande poder, na medida em que são eles a controlar uma parte do orçamento diocesano. Numerosos grupos de pressão, como a União dos católicos críticos na diocese de Chur, assumem assim um forte peso nas orientações pastorais, litúrgicas e doutrinais, e isso num sentido exclusivamente progressista. Foram eles que acabaram por vencer Mons. Haas em 1997, chegando mesmo a deixar de financiar o funcionamento do seminário diocesano…