A forma extraordinária na Suécia: um caso exemplar
Carta 29
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Desde os finais de 2011, a Paix Liturgique conta com uma sétima edição mensal estrangeira: em sueco. Considerando o reduzido número de católicos deste país, o custo da montagem desta edição poderá parecer exagerado, mas o facto é que a Suécia é um caso emblemático da Nova Evangelização desejada pelo Santo Padre. No país de Santo Érico, onde o luteranismo é religião de Estado, o catolicismo vai reavendo pouco a pouco o seu direito de cidadania, após longos séculos de opressão.

Uma ilustração das mudanças em curso é o facto de, após o motu proprio Summorum Pontificum, a forma extraordinária do rito romano ter encontrado neste país um terreno favorável. Já se celebram quatro missas dominicais todas as semanas. Para conhecermos este catolicismo, questionámos David Modin e Jon Emil Kjölstad, dirigentes da Associação em Memória do Cardeal Dante [1] — os amigos suecos do Instituto de Cristo-Rei —, que figuram entre os artífices do regresso da liturgia tradicional a este país.


I – CONVERSA COM A ASSOCIAÇÃO EM MEMÓRIA DO CARDEAL DANTE

1) Neste momento em que a descristianização cresce a olhos vistos nos antigos países católicos da Europa, serà que ficamos com a sensação de que o catolicismo está de boa saúde na Suécia? É verdade? Que lugar ocupa no país a religião de Santa Brígida?

Resposta : A situação é mais complexa do que parece. Como frequentemente acontece, a história dá-nos aqui uma preciosa chave de leitura. Ora, desde a Reforma que ser sueco é sinónimo de anticatolicismo, e nisto a Suécia é comparável à Inglaterra. Assim, há uma certa identidade sueca que se construiu em oposição a Roma. Em 1870, houve ainda três suecos que foram condenados à morte por se terem convertido ao catolicismo … o que, aliás, não deixou de chocar uma Europa então pronunciadamente menos … insular. No final, contentaram-se em exilá-los, e depois a legislação foi suavizada.

No entanto, foi preciso esperar por 1952 para que se visse ser revogada a lei que interditava os mosteiros, o que não deixa de ser bem significativo. Hoje, num ambiente permeado de relativismo e numa Suécia completamente secularizada, a religião católica perturba sobretudo pela sua insistência em relação ao direito natural.

Mas, se lhe parecer bem, voltemos à história. Até a uma data bem recente, o catolicismo era tido por incompatível com a identidade sueca. Assimilado, no espírito das pessoas, à Europa meridional, era um facto que poderia parecer algo de exótico num país que era uma conquista definitiva da Reforma, e que, para além disso, se mostrava etnicamente muito homogéneo desde há milénios. Progressivamente, a partir de 1945, a imigração e a erosão do sentido patriótico foram mudando este dado, até ao ponto de chegarem até a abalar a própria identidade sueca. Houve primeiro, após a Guerra, a chegada dos refugiados poloneses e húngaros, e depois, um pouco mais tarde, a de uma mão-de-obra italiana, mas sem que tudo isto viesse mudar grande coisa no modo de ser do país. Nos finais dos anos 80, foi sobretudo dos Balcãs que chegaram os imigrantes. Desde então, a imigração foi aumentando em número e mudou de natureza, passando a ser — o que nunca se tinha visto na Escandinávia — extra-europeia, nomeadamente, iraquiana e africana. Devido a este facto, assistiu-se a uma mudança do discurso oficial sueco, e pode dizer-se que agora a Igreja Católica sueca se serve da carta do multiculturalismo, tirando proveito, nomeadamente, da simpatia de uma certa elite pelo islão. Podemos também dizer que, hoje, a Igreja Católica na Suécia renunciou em grande medida a ser sueca. Hoje em dia, são os poloneses, os orientais e os africanos a constituírem o grosso das tropas, por assim dizer.

Falemos então destas tropas. Numa população de cerca de 9.000.000 de habitantes, estima-se em 160.000 o número dos católicos. Não há um recenseamento religioso oficial, pelo que temos de nos contentar com as estimativas. Os católicos inscritos nas paróquias são francamente menos numerosos, estando na ordem das 90.000 almas. As vocações são raras. Deste modo, depois de 50 anos de catequese polonesa e não obstante o grande número de poloneses que vivem na Suécia, quase não se vêem vocações polonesas saídas destes mesmos meios poloneses instalados na Suécia. A vinda e a contribuição de jovens sacerdotes poloneses nascidos e formados na Polónia é algo que ainda continua nos dias de hoje. As vocações suecas são igualmente raras. Quanto às conversões, elas limitam-se a uma centena por ano, um número que tem bem pouco de impressionante. Existe, além disso, um certo número de convertidos suecos mais antigos, entre os quais não faltam universitários, mas, não raras vezes, ainda ficaram próximos da herança luterana (o que poderia explicar algumas reticências quanto à missa dita tridentina). Estes suecos não se demarcam verdadeiramente dos demais, no que toca aos debates sobre a sociedade, questões ideológicas, nem da ideologia dominante propagada pelos grandes meios de comunicação. A luta contra o relativismo e contra a cultura de morte condenada por João Paulo II continua, pois, a ser modesta.


2) Precisamente : até à nomeação de Mons. Arborelius como bispo de Estocolmo, em 1988 — e portanto, da Suécia, já que é essa a única diocese do país —, nunca um sueco tinha ocupado esta sede desde a sua criação em 1953. Esta sucessão de prelados estrangeiros, associada ao facto de que mais de um sacerdote em cada três serem poloneses, bem como uma grande parte dos fiéis, fez com que muitos suecos considerassem o catolicismo como uma religião estrangeira. É ainda assim? E o que dizer das vocações no país?

Resposta : É verdade que desde a Reforma, nunca tinha havido um bispo católico sueco. De todo o modo, desde o século XIX, Roma vinha nomeando vigários apostólicos de origem alemã. Ora, nessa altura, e até há bem pouco tempo, os suecos sentiam-se muito próximos da Alemanha do Norte. De resto, estes prelados alemães que foram sendo enviados para o nosso país, muito fizeram para que catolicismo da Suécia fosse verdadeiramente sueco. Foi assim que se tentou reatar os laços com a herança sueca de antes da Reforma. O clero, frequentemente alemão e jesuíta, estudava a cultura e a mentalidade suecas e fazia-as suas. Chegámos mesmo a ver alguns suecos ilustres, entre os quais pessoas de letras, converterem-se. Para dizer a verdade, se, à época, o catolicismo era considerado como algo de estrangeiro, as razões disso eram sobretudo ideológicas. O catolicismo sueco dos anos 20 ou 50 assumia-se como sueco. Hoje, ele assume-se como multicultural. Alguma coisa mudou.


3) Há alguns anos, a conversão de um pastor luterano sueco e a sua entrada na Fraternidade São Pio X atraíram a atenção dos meios de comunicação: qual é hoje o estado do protestantismo sueco? Sabemos que, por exemplo, na Alemanha, no seio do luteranismo, um movimento que não deixa de fazer lembrar o Movimento de Oxford do século passado, e que mostra analogias com o Movimento Litúrgico católico, avolumou-se nos anos 30 apoiando-se nos trabalhos de Solesmes e redescobrindo a liturgia latina e o canto gregoriano. Hoje tem também os seus prolongamentos, como é o caso do Liturgischer Singkreis Jena na Turíngia. Será que, tal como o anglicanismo e o protestantismo alemão, o luteranismo sueco é, também ele, atravessado por uma corrente do género de uma “Igreja Alta”, atenta ao que se passa em Roma, nomeadamente no que diz respeito à questão do regresso a uma liturgia mais digna e cristocêntrica?

Resposta : O protestantismo luterano de Estado está moribundo. É esta uma evolução que se acelerou a olhos vistos nestes últimos anos com o alinhamento da igreja de Estado a propósito das concepções morais mais desordenadas. É assim que podemos hoje ver bispos abertamente homossexuais a defenderem o “direito” ao aborto como se fosse algo evidente. Os fiéis estão envelhecidos, ou são mesmo muito idosos; o clero com influência está bem mais preocupado com a ideologia do género do que com teologia e vida interior. De resto, não chega a haver um verdadeiro laço entre os fiéis, que na sua maioria são de tendência mais ou menos clássica, e este clero — muitas vezes feminino — é cada vez mais “radical”. Os pastores mais clássicos já não têm voz em capítulo. A igreja luterana só vai resistindo graças a uma economia que ainda é bem sólida, o que se deve ao imposto cobrado directamente pelo Estado. Por quanto tempo ainda será este sistema viável? Ninguém sabe.

É bem verdade que existe uma Igreja Alta, assim como outras tendências (mais luteranas) opostas ao modernismo e ao relativismo envolventes, mas hoje elas estão estrutural e irremediavelmente marginalizadas. É manifesto que não se deram bem com o pragmatismo sueco. Esperaram de mais para reagir, e agora é demasiado tarde. Quanto ao resto, sendo o clima intelectual sueco muito insular, o que se passa em Roma quase não tem incidência sobre a Igreja Alta, dentro da qual é normal as pessoas se contentarem em ler o Signum, a revista dos jesuítas suecos (provindos da província alemã), para estarem a par das “coisas católicas”. Ora, esta revista jamais sequer mencionou o tema de que se ocupa a Paix Liturgique. Para terminar, cumpre ainda referir a presença em solo sueco de um certo pentecostismo de proveniência americana.


4) Desde Dezembro, a Suécia conta com quatro missas dominicais semanais celebradas de acordo com a forma extraordinária num quadro diocesano. No total, encontramos no país 9 lugares de missa tradicional, dos quais seis diocesanos e três da FSSPX: qual era a situação antes do motu proprio Summorum Pontificum?

Resposta : Antes do motu proprio, pura e simplesmente não havia qualquer missa dominical segundo o rito gregoriano, à excepção daquela da Fraternidade São Pio X, que era mensal. O Instituto de Cristo-Rei tinha permanências regulares à semana. Tinha sido encetado um diálogo com o bispo. E é tudo.


5) A Associação em Memória do Cardeal Dante, que o Senhor representa, agrega os amigos suecos do Instituto de Cristo-Rei Sumo Sacerdote, que leva presentemente a cabo um seu apostolado no país. Poderia apresentar-nos a missão e a acção da vossa associação? E porquê a escolha de se colocarem sob a protecção do mestre de cerimónias de Pio XII?

Resposta: No início do Verão de 2000, um pequeno grupo de católicos suecos foi até Gricigliano, o seminário do Instituto de Cristo-Rei, para a ordenação de um sacerdote amigo. Encontraram-se aí com o saudoso Michael Davies [2], que, no meio de uma conversa, aliás apaixonante, lhes perguntou porque não havia uma associação sueca mais ou menos aparentada com a Una Voce. Depois de semeada a ideia, ela foi germinando. Vários casamentos e baptismos foram sendo ocasiões para convidar os sacerdotes do Instituto para que viessem à Suécia. Estava assim criado um elo de ligação. Além disso, Mons. Arborelius acabava de ser sagrado bispo, e logo vimos que podíamos contar com uma certa benevolência paternal da sua parte. Também por esse lado, a Providência nos sorria. Num assomo de entusiasmo juvenil, decidiu-se então tentar o impossível e meter mãos à obra para um estabelecimento do Instituto na Suécia. À época, parecia uma loucura. Volvidos sete anos, o impossível realizou-se. Por vezes, a Providência serve-se da loucura dos jovens.

Num país profundamente influenciado pela Reforma, pareceu-nos que as questões relativas à natureza e à graça não podiam deixar de ser centrais (são conhecidos os erros de Lutero e de Calvino sobre este ponto). O mesmo se pode dizer para a época dos dias de hoje, em que a natureza, ou se conhece mal, ou é deformada, e a graça é sistematicamente negada. O equilíbrio do catolicismo, neste domínio, é absolutamente admirável, mas será que é suficientemente conhecido? Não o será apenas dos católicos? Propomo-nos pois inserir o nosso empenhamento ao serviço da liturgia tradicional num quadro mais vasto, no âmbito de uma reflexão sobre a relação entre a natureza e a graça, a cultura e o culto, a civilização e a religião. Ora, a tónica que o Instituto coloca sobre estas questões convém-nos inteiramente.

Em tudo isto, quisemos que o amor e o cuidado relativos à liturgia fossem nossos guias. A falta de piedade e de adoração, como Jean Madiran não deixa de repetir, está na raiz do mal moderno. Ora, a liturgia é a escola da piedade, tanto natural como sobrenatural. Daí a importância que damos a uma liturgia cuidada, bem como ao canto gregoriano. Temos assim que as missas do Instituto na Suécia são integralmente cantadas, e isto todos os domingos, tanto em Estocolmo como em Lund. Pelo facto de as nossas actividades serem regulares, e na sequência do diálogo frutuoso mantido desde há alguns anos com o Paço Episcopal, Mons. Arborelius tem-nos pedido algumas missões, como é o caso da divulgação de informações relativas às celebrações feitas segundo o usus antiquior. O nosso site na internet tem tido um certo sucesso. Também traduzimos para sueco o motu proprio Summorum Pontificum. E publicámos também o primeiro missal latino-sueco desde os anos 60: o Missale Pravum.

A escolha do Cardeal Dante nada tem de insólito. Basta olhar para as fotografias romanas dos anos anteriores ao Concílio e mesmo durante o Concílio para nos sentirmos atraídos por esta figura que se destaca, apesar da sua discrição: Enrico Dante vivia, na fidelidade e na simplicidade, uma concepção rica, complexa e bem enraizada da liturgia romana. Ele soube também encarnar esse ideal sacerdotal e humano que guarda o melhor da nossa herança católica e europeia. É certo que o Cardeal Dante não é suficientemente conhecido, mas isso não é um verdadeiro argumento. Notemos, além disso, que a nossa pequena associação se quis colocar sob a protecção de Santa Brígida e de Santo Érico, rei sueco martirizado a 18 de Maio de 1160.


6) Que acolhimento tem tido a liturgia tradicional na Suécia?

Resposta: É sem dúvida cedo de mais para nos podermos pronunciar com segurança. Os suecos não são um povo impulsivo. É bem verdade que este é um tema muito pouco conhecido, senão mesmo desconhecido, até entre o clero. É preciso que recordemos que os católicos não têm muito acesso ao que se passa em Roma. E é também uma questão geracional. Porque por entre aqueles que mostram um maior interesse, há muitos jovens. Com certeza, a internet tem alguma coisa a ver com isso. Mas falta ainda que esses jovens passem a conhecer algo acerca da sua fé, o que não é evidente. Felizmente, também assistimos a conversões, nomeadamente entre os luteranos e os não crentes que a liturgia de Paulo VI ou uma certa hermenêutica de ruptura mantinha afastados da Igreja. Há alguns sacerdotes diocesanos que também tomam parte nesta evolução favorável à liturgia tradicional. A presença do Instituto de Cristo-Rei também deverá dar sua contribuição, mas ainda é demasiado cedo para avaliarmos.


7) E por fim: quais são os vossos projectos e as vossas expectativas ou esperanças para o ano que vem?

Resposta : Esperamos poder contribuir para a diversificação das actividades do Instituto na Suécia, e ver consolidar-se a sua presença. Continuaremos, claro está, a trabalhar em favor do canto gregoriano. E também desejamos organizar algumas conferências, convidando para isso sacerdotes, religiosos e pensadores provenientes ou próximos da corrente tradicional na Europa. Imagine o que não poderia significar, para um mundo sueco por demais insular e materialista, a visita de um Rev. Padre Lang, do Oratório, ou de um Padre Barthe ou de um Martin Mosebach! Também lançamos, este ano pela primeira vez, uma peregrinação à Ascensão de Vadstena, a cidade de Santa Brígida. Em 2013, se Deus quiser, iremos acolher os peregrinos vindos de Itália, França, Alemanha, Inglaterra e Polónia.



II - AS REFLEXÕES DA PAIX LITURGIQUE

1/- O caso da Suécia dá-nos boas razões para pormos a nossa esperança em todos aqueles que, pelo mundo fora, estão ligados à forma extraordinária e que defendem a paz litúrgica. É quase como um caso de escola para uma aplicação do motu proprio Summorum Pontificum em terreno hostil. A exposição histórica e cultural da Associação em Memória do Cardeal Dante é particularmente esclarecedora quanto a este ponto: num contexto de rara dificuldade, um punhado de católicos determinados teve razão em querer manter a esperança contra toda a lógica humana e em querer bater-se pela realização do que era impensável.

Que bela lição de militantismo para todos aqueles que, desencorajados pelas oposições clericais, acabaram por renunciar e abandonar a sua demanda! Se o desenvolvimento da missa tradicional é possível na Suécia, então também o há-de ser em qualquer outra parte do mundo. Depois, o que faz falta é querê-lo verdadeiramente.

O exemplo deste punhado de católicos decididos também nos deveria fazer reflectir sobre essa atitude que consiste em se ficar contente com a celebração da missa tradicional como que em reservas índias, em guetos, por mais dourados que eles possam ser. É preciso que a missa tradicional volte a ter o seu direito de cidadania em todas as paróquias.


2/- Confrontados com uma Igreja de Estado luterana que se deixa morrer, muitos suecos voltam-se agora para uma prática religiosa coerente, em que a forma é uma clara expressão do seu fundo. Quando lemos os escritos do Cardeal Ratzinger e as considerações de Bento XVI a propósito do motu proprio que ele mesmo assinou, não exageramos se dissermos que, para ele, a liturgia tradicional é um instrumento decisivo para a renovação da fé.

O desfasamenento entre este clero secularizado e cada vez mais envelhecido e uma juventude seduzida pelo Motu Proprio, ávida de espiritualidade, de recolhimento e de beleza, é algo particularmente reconfortante quando se olha para o futuro. Enquanto alguns eclesiásticos estão ainda ancorados numa atitude já ultrapassada de interdição prática da missa tradicional ou do desenvolvimento da mesma, já a juventude católica vem mostrando uma resposta favorável à reconciliação litúrgica desejada pelo Santo Padre.


3/- Não obsante o Motu Proprio Summorum Pontificum se dirija antes de mais aos párocos, o moderador da diocese é sempre o bispo: os fiéis que deparam com uma recusa ao acesso à missa tradicional sabem-no muitíssimo bem… Aqui é que o exemplo sueco nos mostra como um bispo acolhedor pode ser um factor de paz na sua diocese, precisamente por facilitar o acolhimento da forma extraordinária. Este facto leva-nos à questão escaldante das nomeações episcopais: a restauração desejada por Bento XVI precisa de bispos Summorum Pontificum.


4/- Por fim, o exemplo da Suécia prova uma vez mais que a liturgia tradicional é uma riqueza de toda a Igreja, e de cada um dos fiéis e dos sacerdotes no mundo inteiro. Mesmo nos lugares em que ela esteve ausente durante dezenas de anos, os fiéis que nunca a tinham conhecido, apesar disso, mal a descobrem logo se sentem atraídos por esta forma litúrgica, acarinhando-a e almejando que a sua santificação se faça por meio dela. Ora aí está uma bela resposta para quantos vêem na aplicação do Motu Proprio um retorno ao passado. Onde é que está o retorno ao passado no caso de todos esses fiéis aos quais este tesouro tinha sido escondido e que apenas agora o descobrem, graças à determinação de certas pessoas, bem como à benevolência e à justiça de Bento XVI?

E eis aqui também um desmentido para aqueles que tentam limitar o número dos católicos ligados à forma extraordinária apenas àqueles que já a praticam em lugares de culto destinados a esta mesma forma. Com um raciocínio deste tipo, ontem, na Suécia, era facil concluir que a missa tradicional não interessava a ninguém, já que não era celebrada ou quase não o era… No entanto, logo que esta experiência se tornou possível, há fiéis que nunca tinha pedido o que quer que fosse, ou que até a ignoravam por completo, mas que, afinal, se puseram a segui-la e a praticá-la. E tudo por causa da determinação de um punhado de católicos corajosos. O que se passa na Suécia vem confirmar uma vez mais o que tem sido detectado pelas sondagens da Paix Liturgique: há um número muito significativo de fiéis que gosta da missa tradicional e que a quer. O que falta é que os seus pastores lhes dêem a possibilidade de a ter.


[1] O Cardeal Enrico Dante é uma figura mítica para os liturgistas da forma extraordinária, para quem esta figura se apresenta estreitamente ligada à de Pio XII. Prefeito das Cerimónias Pontifícias desde 1947 até à sua morte, em 1967, na verdade ele também foi muito apreciado por João XXIII, que, muito mais do que o seu predecessor, apreciava o fausto e a longa duração das cerimónias papais.

[2] Michael Davies, escritor tradicionalista inglês, ex-presidente da Una Voce Internacional.