«Devolver a juventude à Igreja»: uma conversa com o Abade de Mariawald
Carta 34
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Na nossa carta 162, de 26 de Janeiro de 2009, comentávamos o regresso à liturgia tradicional na Abadia alemã de Mariawald, que occorreu nos finais de 2008 dando aplicação ao Motu Proprio Summorum Pontificum.
Quatro anos mais tarde, achámos ser uma boa ideia pedir ao Abade desta Abadia, Dom Josef Vollberg, que nos desse um primeiro balanço desta escolha. Esta semana, propomo-vos a leitura desta entrevista - originalmente feita em alemão para a nossa carta de língua alemã -, apresentando de seguida as nossas reflexões.



I – A NOSSA ENTREVISTA COM DOM JOSEF, ABADE DE MARIAWALD



1) Senhor Dom Abade, poder-nos-ia fazer uma breve apresentação da sua abadia, da sua história e do lugar que ocupa no cenário católico alemão?
Dom Josef : O mosteiro de Mariawald encontra-se nos confins do parque nacional de Eifel, a cinquenta quilómetros a sudoeste de Colónia, não muito longe da fronteira com a Bélgica. É um lugar isolado encravado entre as colinas e rodeado de pradarias e florestas.
A sua história começa nos finais do século XV, no seguimento da crescente veneração que se ia prestando a uma “Pietà” que um habitante das redondezas aí tinha deposto. Em 1486, os cistercienses instalam-se nesse lugar, e em 1511, inauguram aí uma primeira capela. O mosteiro desenvolve-se então, até que a tempestade da Revolução Francesa e, no seguimento dela, a “Kulturkampf” de Bismarrk e o terror nazi acabaram por levar à sua destruição parcial e até mesmo à sua supressão. E em todas essas ocasiões, o mosteiro e a ordem a que ele pertence conseguiram encontrar os recursos necessários para se regenerarem.
Mariawald é a única trapa existente na Alemanha. Os trapistas são monges saídos da renovação cisterciense que se desencadeou a finais do século XVII, com a reforma da Abadia de La Trappe levada a cabo pelo abade de Rancé. O nome completo da ordem é “Ordo Cisterciensis Strictoris Observantiae” (OCSO), isto é, Ordem Cisterciense da Estrita Observância.
Mariawald ocupa um lugar especial no mundo católico alemão, sobretudo depois da reforma de 2009. Com a autorização do Santo Padre, o Papa Bento XVI, a abadia celebra a liturgia segundo a forma extraordinária do rito romano, em conformidade com os livros usados pelos cistercienses até ao Concílio. Mariawald está a seguir a vontade do Santo Padre, que já ao tempo em que era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, havia lançado o alerta contra a autodissolução subjectivista da fé e o esquecimento das nossas raízes espirituais. A obra que Mariawald realiza quer estar votada ao serviço da Igreja e dos cristãos do mundo inteiro.
Infelizmente, em larga medida a reacção dos católicos não tem correspondido à vontade do Santo Padre. É com demasiada frequência que vemos a sua reforma ser etiquetada de reaccionária, para ser em seguida recusada.
Ainda assim, a escolha feita por Mariawald obteve a gratidão e a compreensão de muitas pessoas, como o testemunha o número crescente de fiéis que vêm à missa de domingo e os constantes pedidos de alojamento para retiros e temporadas de repouso. Cumpre dizer que temos uma relação de grande respeito, estima e amizade com a comunidade dos fiéis que conserva e venera o ícone milagroso da Pietà de Mariawald – uma relação que infelizmente é ainda uma excepção.

2) Poderia indicar-nos quais as motivações que vos levaram a abraçar em finais de 2008 o Motu Proprio Summorum Pontificum, escolhendo para a vossa abadia a forma extraordinária?
Dom Josef : Na nossa comunidade não se notavam frutos visíveis das mudanças trazidas pelo Concílio Vaticano II e os nossos membros tinham diminuído de maneira drástica. Entre 1965 e 2011, houve muitos monges que abandonaram o mosteiro e apenas duas vocações se confirmaram.
Foi assim que, em face da tendência antropocentrista da nova liturgia, nasceu o desejo de pôr Deus de novo no centro da vida do mosteiro. Tal como uma árvore não vive senão quando é alimentada pela energia que recolhe através das suas raízes, assim também o monge (e não apenas ele!) tem necessidade da sabedoria de um tesouro de séculos para então devolver à Igreja a sua juventude.
Note-se que a liturgia de Mariawald não é idêntica em tudo ao rito romano. Tem especificidades em matéria de calendário, liturgia eucarística e, sobretudo, no que toca ao breviário (a liturgia das Horas).

3) Quais foram as alterações na vossa vida religiosa que esta escolha veio a implicar?
Dom Josef : A reforma tornou a vida espiritual dos monges mais exigente. A nova – entenda-se “a antiga” – liturgia requer uma aprendizagem adequada: cantar o gregoriano é uma arte que exige uma formação especial; a atenção ao latim como língua apropriada para o culto requer empenho da vontade e assiduidade; a recitação do breviário leva mais tempo e o começo do Ofício às 3h da manhã exige uma vontade autêntica de renúncia. Todos estes sacrifícios têm a sua recompensa na descoberta de riquezas até então ignoradas.
O serviço do altar requer também ele uma aprendizagem adequada e os próprios fiéis também se devem formar para esta liturgia versus Deum. A celebração versus Deum, em lugar daquela versus populum, exige da parte deles um tipo diferente de “partcipatio actuosa” – que a maior parte do tempo é mais consciente. A comunhão na boca leva ela também a uma adoração mais profunda. Diga-se de passagem que o próprio Santo Padre também distribui a comunhão na boca segundo o Novus Ordo, dando assim o exemplo da tão desejada “reforma da reforma”.

4) Qual foi a influência sobre a qualidade da vossa vida comunitária?
Dom Josef : Quarenta anos da nova liturgia tornam qualquer mudança de orientação difícil, sobretudo para os irmãos mais idosos.
No entanto, hoje, as tensões iniciais cessaram e a situação é mais serena. A abertura à tradição ininterrupta da Igreja e a intensificação da vida espiritual, lentamente vão dando os seus frutos, como esperávamos que acontecesse, em particular em matéria de novas vocações. Não há aqui lugar para a impaciência. Para usar uma imagem de um amigo da abadia: reformar Mariawald é como inverter a marcha de um paquete em alta velocidade, leva o seu tempo. Mariawald precisa de tempo, mas também das orações de todos…

5) Que balanço nos pode dar hoje desta escolha? Produziu um efeito sobre as vocações que conseguem chamar?
Dom Josef : Se me pede um balanço, o que lhe posso dizer é isto: «Faria tudo outra vez, apesar das muitas e às vezes subtis dificuldades.» Tem havido e há ainda muitos candidatos a quererem entrar em Mariawald: desde a reforma de 2008, entre 40 e 50. Mas a maior parte acaba por não ficar devido às exigências específicas da regra estrita que aqui se observa. Isso é um reflexo de um fenómeno geral da sociedade do nosso tempo: a incapacidade de assumir um compromisso a longo prazo. Vemo-lo também na rejeição do casamento, na prática cada vez mais generalizada do concubinato e no número crescente de divórcios.
Este medo do compromisso afecta todas as ordens religiosas e não está ligada à natureza da reforma que levámos a cabo.
Em 2008, no mosteiro, éramos 12 monges. Desde então, dois deles morreram. Assim, hoje, somos dez, dos quais um irmão que fez recentemente a sua profissão solene (ele é um que não tem medo de se comprometer!). Temos também um noviço e, este ano, iremos ainda receber duas ou três pessoas que manifestaram um interesse sério em se unirem a nós. Além disso, há ainda três monges que vivem fora do mosteiro.

6) Acontece-vos acolherem sacerdotes (diocesanos ou de outras comunidades religiosas) desejosos de descobrirem e aprenderem a forma extraordinária?
Dom Josef : Sim, acontece; recebemos regularmente pedidos da parte de sacerdotes desejos